Chico Whitaker
   
 
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Por um Brasil livre de usinas nucleares
 
relato de viagem a fukushima
2014-12-22

Fiz em Outubro de 2014, em pleno período de campanha eleitoral, uma viagem inesperada de sete dias ao Japão – mais especificamente a Fukushima, onde ocorreu o acidente nuclear de 2011. O programa foi carregado demais para conseguir fazer o que pretendia: mandar aos amigos mais curiosos, ao longo da viagem, pequenos bilhetes com relatos do que via. Mas anotei o que pude e os escrevi depois de voltar. E os divulgo agora, já depois do segundo turno das eleições, esperando que um dia os riscos inerentes ao uso da energia nuclear para produzir eletricidade recebam de nossos governantes a atenção que merecem.

 
 

A trágica herança de Fukushima


Relato de viagem


Chico Whitaker, novembro de 2014


Fiz em Outubro de 2014, em pleno período de campanha eleitoral, uma viagem inesperada de sete dias ao Japão – mais especificamente a Fukushima, onde ocorreu o acidente nuclear de 2011. O programa foi carregado demais para conseguir fazer o que pretendia: mandar aos amigos mais curiosos, ao longo da viagem, pequenos bilhetes com relatos do que via. Mas anotei o que pude e os escrevi depois de voltar. E os divulgo agora, já depois do segundo turno das eleições, esperando que um dia os riscos inerentes ao uso da energia nuclear para produzir eletricidade recebam de nossos governantes a atenção que merecem.[1]  


Temos muitos japoneses e filhos de japoneses vivendo no Brasil. No entanto para nós, brasileiros, o Japão é um lugar distante, do outro lado da Terra. Quando criança me diziam que um furo que fizéssemos debaixo de nossos pés, varando todo o planeta, desembocaria por lá. Com os aviões de hoje levamos quase 24 horas para chegar. No voo no hemisfério norte se segue um paralelo próximo ao polo. Indo pelos Estados Unidos chegamos um dia antes; pela Europa, um dia depois... É um pouco mais adiante do “fim do mundo”, como se diz.


Pode-se entender portanto porque o acidente nuclear de Fukushima – assim como o terremoto e o tsunami que o precederam - nos emocionaram quando ocorreram mas foram em seguida praticamente esquecidos. No entanto quando vamos a Fukushima somos surpreendidos pela espécie de “fim do mundo” que está vivendo o povo daquele país, com a mortífera radioatividade espalhada com a explosão de uma de suas 54 usinas nucleares. Assim como nos assustamos quando ficamos sabendo de tudo que nos escondem sobre o acidente nuclear de 1986 em Chernobyl, na antiga União Soviética.


O dramático é que a radioatividade então espalhada por enormes territórios é artificial, isto é, foi fabricada por mãos humanas. Se as mãos fossem do diabo poderíamos dizer que são suas novas tentativas de aniquilar a Vida na Terra pela manipulação do átomo. As bombas atômicas foram a primeira tentativa, com um autêntico genocídio no mesmo Japão hoje novamente martirizado. Mas elas não chegaram a ser usadas mais do que duas vezes. Depois vieram os testes para fabricar bombas cada vez mais poderosas, que disseminaram radioatividade artificial em muitos lugares do planeta. Estocadas em grande quantidade, elas constituem hoje uma ameaça permanente para toda a Humanidade.


Mas após o período de testes o diabo encontrou, com o chamado “uso pacifico da energia nuclear”, um modo mais sorrateiro de matar. Para atender à necessidade de energia elétrica multiplicam-se hoje, pelo mundo afora, usinas nucleares que carregam consigo o risco de explosões – com dispersão de radioatividade - como ocorreu e ainda ocorre em Chernobyl e Fukushima.


Temos então que repetir a mensagem que ouvi de uma vereadora de Koriyama (a 70 km da usina acidentada), no decorrer de minha visita: nunca deixaremos que a “memória de Fukushima” desapareça. Este texto é uma pequena contribuição para isso, na solidariedade não somente com os japoneses, pelo sofrimento que lhes está sendo imposto, mas com toda a espécie humana, pelo que pode vir a sofrer por causa do orgulho cientifico, da ganância dos detentores do dinheiro e da irresponsabilidade dos políticos


***


Fui ao Japão numa “viagem de estudos” organizada pela Cruz Verde Internacional, fundação com sede na Suíça criada por Gorbatchev, Presidente da União Soviética quando ocorreu o desastre na usina nuclear de Chernobyl. O nome Cruz Verde indica que ela cuida de vítimas, como a Cruz Vermelha. Mas de outro tipo de guerra... De uma tecnologia, contra os seres humanos, a natureza, a Vida...


Éramos 32 pessoas, de 7 países: parlamentares e responsáveis políticos, médicos, membros de organizações e movimentos antinucleares. Para ver mais de perto o que está se passando no Japão depois do “acidente” de 2011.


***


Relembrando, para melhor situar as coisas: esse acidente (em seguida a um terremoto e um tsunami) foi o terceiro grande acidente desse tipo ocorrido no mundo: o primeiro foi em Three Miles Island, nos Estados Unidos em 1979, o segundo em Chernobyl, na então União Soviética, em 1986, e o terceiro esse de Fukushima, em 2011. Houve também um outro antes de Chernobyl e com quase as mesmas proporções, em 1957, em Mayak, nos Urais, na União Soviética. Era uma usina militar para a produção de materiais físseis para bombas. Este acidente não chegou no entanto ao conhecimento do mundo durante 20 anos. Mas os vazamentos de agua radioativa da usina criaram o que hoje é considerado o lago mais contaminado do planeta (Karachai).


Ao longo do período que se iniciou em 1954, com o programa “Átomos para a Paz”, lançado por Eisenhower em plena corrida armamentista da Guerra Fria, governos diversos enveredaram, uns mais outros menos, apoiados no mito que se criou da energia “limpa, barata e segura”, na construção de usinas nucleares - ainda que um objetivo militar se escondesse nesse projeto, na intenção de dominar a tecnologia para a produção de bombas atômicas (ao mesmo tempo que se podia estocar o plutônio, “fabricado” pelas usinas, como combustível para bombas). Nesse período houve então, nas usinas existentes, uma enorme quantidade de “incidentes”, como são chamados os acidentes considerados leves. E houve acidentes “menores”, com simples aparelhos de radioterapia que usam os elementos radioativos artificiais fabricados pelos reatores nucleares, dos quais o mais grave teria sido o que ocorreu em Goiânia, no Brasil, em 1987.


Foi em Three Miles Island que se constatou pela primeira vez que nas usinas nucleares poderiam também ocorrer “acidentes” mais graves (nos quais o reator das usinas chega a fundir e em decorrência disso ocorrem explosões, dando-se a eles o bonito nome de “acidentes severos”). Passou-se então a considerar a necessidade de muitos novos cuidados na construção e nos equipamentos das usinas, do ponto de vista da segurança. Por isso os terríveis efeitos desses acidentes, que levam à necessidade de evacuação da população que vive no entorno, fizeram com que passassem a ser chamados, por quem critica o nuclear, de “catástrofes”... (como me ensinou Ichiyo Muto, que cito no final deste texto).


Parece no entanto que tais cuidados não merecem maior atenção no Brasil, em Angra dos Reis (onde se situam nossas três usinas, de Angra I, Angra II e agora, em construção, Angra III). São considerados como um exagero pelos que defendem a energia nuclear... Apesar do projeto de Angra III ser anterior a Three Miles Island, e os equipamentos terem sido comprados (e encaixotados) no início dos anos 80 (antes de Chernobyl), a Eletronuclear, que administra nossas usinas, disse, frente a um questionamento do projeto pelo Ministério Público Federal, que as condições de segurança seriam examinadas depois da construção terminada...


Agora, com o que ocorreu (e está ainda ocorrendo) em Fukushima, está crescendo, fora do Brasil, uma tomada de consciência mais generalizada dos enormes riscos que essa tecnologia carrega consigo, embora a pressão do “lobby nuclear” aumente cada vez mais, especialmente sobre os países menos desenvolvidos. O efeito mais espetacular dessa tomada de consciência foi o abandono total da tecnologia nuclear pela Alemanha, que dela dependia mais ou menos como o Japão, e que atualmente desenvolve celeremente tecnologias alternativas, com base em fontes seguras e sustentáveis de energia, e dedicará muitos anos ao desmonte de todas as suas usinas.


Como digo nas minhas “considerações finais”, espero que estas notas de viagem despertem em muita gente a vontade se informar mais sobre todas essas questões. E que isto nos leve a todos à vontade de participar o mais possível da difícil luta por um Brasil livre de usinas nucleares.


As etapas da “viagem de estudos”


 


Encontro com representantes políticos


Depois de uma sessão com alguns especialistas da questão nuclear no Japão, no dia da chegada, o primeiro contato mais direto com o acidente foi um encontro na manhã seguinte, ainda em Tóquio, com quatro deputados da “base” do governo. Participaram, do nosso grupo, os que atuam mais diretamente na política.


Fizemos uma série de perguntas, como por exemplo a que nos vem a todos:  no Japão 30% da energia elétrica era de origem nuclear e há mais de três anos seus 54 reatores estão parados. Como conseguem manter a atividade econômica? Sem esconder as dificuldades, os deputados nos disseram que os problemas vão sendo pouco a pouco resolvidos pelo governo e as 10 companhias privadas de eletricidade (das quais as principais são a TEPCO, que opera em Fukushima, e a Kansai). Os reatores parados estão sendo submetidos a uma revisão meticulosa. Três poderão proximamente recomeçar a funcionar (mais tarde eu soube que isto ocorrerá somente com os 20 mais novos). Explicaram as medidas de economia de energia que tomaram e o uso inclusive de outras fontes como a eólica e a solar. O encontro entrou pela hora do almoço, servido ali mesmo.


Eu mesmo pude fazer quatro perguntas. A primeira foi sobre o fato do Juiz da cidade onde se reabriria a primeira usina (Ohi) ter impedido essa reabertura. A notícia tinha sido divulgada pelo Observatório do Nuclear, da França. A população reagira de muitas formas à reabertura, e o Juiz tinha dado uma sentença julgada histórica: não contestou a retomada de funcionamento por esta ou aquela debilidade técnica ou organizacional mas simplesmente pelo risco que se corre automaticamente com a simples retomada do funcionamento. Para ele, « o direito pessoal dos indivíduos de protegerem sua vida e seus meios de subsistência é o mais alto valor decorrente da Constituição ». O Observatório do Nuclear tinha feito o seguinte comentário: « é fácil imaginar as grandes manobras que estão sendo feitas nos bastidores para encontrar juízes ‘razoáveis’ na Corte de Recursos e salvar o negócio atómico”.


Os deputados evidentemente minimizaram a importância da sentença. Disseram que naturalmente há gente que protesta contra a reabertura dos reatores. Eu sabia que naquela mesma tarde, como todas as sextas feiras, haveria uma manifestação em torno do Parlamento, contra a reabertura de usinas. Perguntei quantas pessoas comparecem. “Umas duzentas”, disseram. Não pude constatar pessoalmente, porque naquela mesma tarde seguimos para a região de Fukushima. À minha volta a Tóquio amigos disseram que tinham participado em torno de 2.000 pessoas: “Todas as 6as é mais ou menos esse o número.”


O dado me foi confirmado por militantes de uma “tenda anti-nuclear” que ocupa uma esquina próxima ao local das manifestações, em frente ao Ministério da Economia, e que visitei ao voltar a Tóquio. Em duas barracas (uma para homens, outra para mulheres) eles se revezam dia e noite, dirigindo-se aos passantes com um pequeno amplificador de som. Quando lá estive, um pequeno cartaz diariamente renovado dizia que aquele era o 1.122º. dia da ocupação...


(Já no Brasil soube que, poucos dias depois, um grupo de direita foi à noite atemoriza-los, destruindo os cartazes fixados nas barracas. Mas eles continuaram por lá...)


Perguntei aos deputados se era correta a informação de que 80% da população japonesa era contra o nuclear. Sua resposta: Não são tantos. Só uns 60%... Mais tarde amigos me explicaram porque esses 60% (que são na verdade de 70 a 75%) deixaram que fosse eleito um governo que declarou pretender reabrir as usinas: o voto no Japão é facultativo; o partido no poder obteve 43%, mas com 60% de participação; o apoio a ele é portanto minoritário.


Perguntei então o que resultara do trabalho da “Comissão de Investigação Independente do Acidente Nuclear de Fukushima”, instaurada pelo Parlamento Nacional Japonês logo depois do acidente. Seu relatório, que chegara às minhas mãos antes de viajar, tinha sido bastante duro. Os deputados pareceram desinformados, e o tradutor não disse o que falaram quando se entreolharam surpresos. Mas asseguraram que suas recomendações estavam sendo seguidas... Pelo menos aquela que dizia ser necessário separar quem promove e opera a energia nuclear de quem o fiscaliza... Coisa de que nem se cogita no Brasil...


Em suma, tranquilizem-se, foi o recado dado por eles a nós. Está tudo sob controle. Inclusive algo que não foi perguntado: quando vai “esfriar” de vez o corium (massa fundida do reator acidentado) para mantê-lo numa temperatura menor do que os 3.000 graus que alcança quando derrete, e não seja mais necessário jogar no Pacifico toneladas e toneladas de agua radioativa usada para refrigerá-lo permanentemente? Não sei se teriam como responder a essa questão.


(Na viagem de volta pude ainda participar, na França, de um debate sobre Fukushima, em que soube que as recomendações atuais de segurança para usinas nucleares incluem um enorme reforço da base de concreto em que é colocado o reator, que teria que ter 9 metros de profundidade (um prédio de três andares de concreto maciço...). Observação feita na ocasião por um especialista: ainda assim vai furar... Que o digam os ucranianos: quase 30 anos depois do acidente de Chernobyl, estão construindo um segundo “sarcófago” que cubra o primeiro com que enterraram o reator que explodiu, para tentar parar os vazamentos de radioatividade que persistem...)


 


Um conluio?


O Presidente da “Comissão de Investigação Independente” do Parlamento Japonês tinha sido Kiyoshi Kurokawa, professor emérito da Universidade de Tóquio, médico, assessor do Gabinete do Governo, ex-Presidente do Conselho de Ciência do Japão e da Associação de Ciência do Pacifico.


Em sua Mensagem de Apresentação do relatório, ele diz que, embora tenha sido desencadeado por um terremoto e um tsunami, o acidente de Fukushima “não pode ser considerado um desastre natural. Foi um desastre totalmente fabricado pelo homem, que poderia e deveria ter sido previsto e impedido. E seus efeitos poderiam ter sido mitigados por uma resposta humana mais eficaz.”


A investigação durara seis meses, com mais de 900 horas de audiências e entrevistas com 1.167 pessoas, visitas in loco, envio de três equipes ao exterior, audiências com especialistas dos EEUU, da França, da Rússia, da Ucrânia e da Bielorrússia, reuniões públicas difundidas pela internet para um total de 800.000 espectadores, que mandaram mais de 170.000 comentários. No momento deve ter tido uma boa repercussão. Não é de estranhar que, mais de três anos depois do acidente, tantos japoneses não queiram que algo semelhante se repita...


O Presidente Kurokawa levanta a questão que se colocou em todo o mundo, em 2011: como poderia tal acidente ocorrer no Japão, um país que tem um orgulho tão grande de sua reputação mundial de excelência em engenharia e tecnologia?


Ele completa: O povo japonês – e a comunidade mundial – merecem uma resposta completa, honesta e transparente a esta pergunta. (...) Nosso relatório cataloga uma grande quantidade de erros e negligências voluntárias que deixaram a instalação de Fukushima despreparada para os eventos de 11 de março. E examina as graves deficiências ocorridas na resposta ao acidente dada pela TEPCO, pelos reguladores e pelo governo. (...) O que deve ser admitido – muito dolorosamente – é que este foi um desastre “made in Japan”.


Analisando a mentalidade japonesa, o Presidente da Comissão afirma que os burocratas colocaram os interesses de sua organização à frente de seu primordial dever de proteger a segurança do público. E que a indústria nuclear do Japão não conseguiu absorver as lições de Three Miles Island e Chernobyl, por aceitar a prática de resistir à pressão regulamentadora e encobrir pequenos acidentes.


As Conclusões do Relatório começam com uma afirmação perturbadora: O acidente da usina nuclear de Fukushima da TEPCO foi resultado de um conluio entre o governo, os reguladores e a TEPCO, e da falta de governança dessas partes. Elas efetivamente traíram o direito da nação de ter segurança no caso de acidentes nucleares.  


Não posso deixar de fazer um paralelo entre as observações do relatório e o que ocorre entre nós, quanto aos cuidados na construção e operação das usinas de Angra dos Reis e à opacidade das decisões a respeito.


O governo brasileiro recentemente destinou recursos à montagem, em Angra III, do reator comprado pelos militares nos anos 70 (antes do primeiro grande acidente ocorrido no mundo, nos Estados Unidos, em 1979) e importado no início dos anos 80. Vamos montá-lo em prédios construídos com um projeto também dessas décadas.


Suas especificações de segurança levam em conta o que ocorreu em Three Miles Island, em Chernobyl e em Fukushima? Há gente preocupada com isso, no Brasil?  Ou há gente pelo menos perguntando qual é o estado desses reatores, depois de mais de 30 anos empacotados junto a Angra I e Angra II? Não estariam eles defasados quanto às atuais exigências de segurança? Haveria entre nós gente traindo o direito da nação de ter segurança?


Na mesma preocupação, me pergunto: quantos de nós estamos informados do relatório (e suas recomendações) do Grupo de Trabalho sobre Fiscalização e Segurança Nuclear, criado em 2004 pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados? Esse Grupo de Trabalho foi criado quando estava sendo retomada a construção de Angra III, considerando o que ocorrera em 1987 em Goiânia com o césio 137 e com o que ainda está ocorrendo com os trabalhadores da antiga Nuclemon de São Paulo.


O Relatório diz, logo em seu início: Existe no país uma grande preocupação por conta das fragilidades das nossas instituições, sobretudo no que diz respeito à fiscalização e ao cumprimento das leis, normas e regras. O que fazem nossos burocratas com esse Relatório? E os nossos legisladores?  


 


Você come peixe?


Na noite do encontro com os deputados tive minha primeira experiência com áreas “contaminadas”, como se diz. Tínhamos viajado de ônibus para Koriyama, maior cidade da região administrativa de Fukushima, a 200 km ao nordeste de Tóquio e a 70 km da usina acidentada, fora da zona evacuada. Com 335.000 habitantes, é a capital econômica de uma região que foi grande produtora de arroz.


Antes de entrar na cidade paramos num “centro de conferências”, no meio de um parque, para ouvir um ex-morador da pequena cidade de Tomioka, a 10 km da usina, que seria visitada no dia seguinte. Essa pequena cidade tinha 16.000 habitantes no momento do acidente. Todos foram devidamente evacuados. Hoje é uma “cidade fantasma”, abandonada. O ex-morador nos contaria como anda a coisa por lá. Trabalha numa empresa contratada pela TEPCO e pela Toshiba para verificar sistematicamente o nível de radioatividade do local e como guia para visitas de no máximo 3 a 4 horas.


Ao descer do ônibus empunhei orgulhosamente meu medidor Geiger (quase nenhum membro da comitiva, afora os organizadores da “visita de estudos”, estava equipado com esse aparelhinho) e constatei que no pátio pavimentado onde o ônibus parou ele indicava em torno de 0,25 microSivierts por hora. Este valor não chega a ser preocupante (a radioatividade “natural” na crosta terrestre gira em torno de 0,12...). Aproximei-me no entanto de algumas árvores na área ajardinada ao lado do pátio e o medidor saltou imediatamente para 0,58 ... Voltei rápido para trás e comentei com um dos organizadores, que me disse: é claro, você se aproximou do bosque...


Comecei a entender então como ocorre a tal de contaminação (estávamos a 70 km da usina...): com a explosão dos reatores (três explodiram, dos quatro que existiam em Fukushima-Daiichi) foram lançados ao ar (e levados pelo vento) os muitos e diversos elementos radioativos “fabricados” pelos reatores com a desintegração dos átomos do urânio usado como combustível. Esses radionuclídeos, ou produtos da fissão, como são chamados (em torno de 40 diferentes tipos), “pousaram” nas folhas das arvores. E lá continuam ou são levados ao chão pela chuva, chegando ao lençol freático, onde circulam ou são reabsorvidos pelas raízes das árvores, para reaparecerem em suas folhas – ou nos corpos dos animais que comam raízes ou folhas, ou no arroz que era plantado na região... Mas onde quer que estejam (o césio 137, o cobalto 60, o amerício 241, o estrôncio 90...), eles emitem radiações, porque continuam a se desintegrar espontaneamente.


Essa desintegração pode ser rápida (alguns, como o Iodo 131, têm a sua quantidade de átomos radioativos reduzida à metade em 8 dias). Outros, mais lentamente (como o Plutônio, que leva 24.100 anos para que a metade de sua massa deixe de ser radioativa, ou muito mais lentamente, como o Tório 232, que leva para isso 14 bilhões de anos...). As 19 gramas de césio 137, que infelicitaram Goiânia, depois de 30 anos terão a metade de seus átomos ainda radioativos. É o que os entendidos no assunto chamam de “meia vida”. Esta é uma das expressões com que os defensores do nuclear relativizam as coisas para não nos assustarmos... A outra metade da massa considerada continua radioativa, e a metade dessa metade deixará de ser radioativa em outros 30 anos. E assim por diante, o que pode ir bem longe em número de anos em que conviveremos com esse elemento radioativo, ainda que o seja em cada vez menor quantidade...


Naquelas folhas que quase toquei estavam algumas dessas perigosas partículas, quase quatro anos depois da explosão da usina, invisíveis num bosque “um pouco contaminado” em que comecei a entrar sem vê-los, cheirá-los, senti-los, ouvi-los... O que podia, isso sim, era receber suas radiações. 


Em sua palestra, depois, o guia nos contou várias coisas: que não é verdade que a situação no reator no. 1 (o primeiro que explodiu) esteja sob controle; que na verdade não se sabe o que realmente está acontecendo dentro da usina, já que nelas não se pode entrar nem enviar robôs; que Obama tinha dito que todos os norte-americanos que viviam num raio de 80 km da usina deveriam se afastar de lá (estávamos a 70 km...).


No final, um coreano que nos acompanhava lhe perguntou, insistindo em receber uma resposta: o senhor come peixe? Meio desconcertado, só disse que gostava de peixe... Na verdade a Prefeitura de Fukushima verifica todos os alimentos produzidos e comercializados na região e descarta os que estão “contaminados”, isto é, com elementos radioativos dentro deles... Mas as pessoas não têm assim tanta confiança nessas medidas, como pude verificar depois.


 


E se eu tiver ingerido partículas radioativas?


À noite desse mesmo dia tive mais um susto: no jantar do hotel em que nos instalamos me vi de repente – graças ao meu fino paladar, que não distingue o tipo de bife que come... – comendo um peixe fatiado que me serviram.


Levei evidentemente o maior susto: o que fazer? Tentar “devolver” o que já entrara no meu estômago? E se as verificações dos órgãos fiscalizadores não fossem tão rígidas? As tais de partículas radioativas já estariam instaladas nos lugares do meu corpo que lhes interessavam, em pleno trabalhinho de irradiação. Não daria mais para identificá-las e tirá-las, com alguma pinça...


Fiquei naturalmente um pouco aflito e fui falar com a guia principal de nosso grupo. Ela logo me acalmou dizendo: não se preocupe, o que serviram era salmão, um peixe que não é da região. Mas por via das dúvidas ela foi verificar junto à cozinha, onde lhe disseram que era salmão importado do Chile... Uff, que alivio. No dia seguinte trataram de informar previamente a todos que teríamos de novo salmão importado do Chile e carne importada da Austrália...


Mas esse episódio me deu um pouco a medida da tensão que vivem muitos japoneses, pelo menos na região de Fukushima. Onde estão se escondendo partículas radioativas? Uma coisa é sermos “irradiados” quando um raio x atravessa nosso corpo ou fazemos algum exame ou tratamento com radioatividade. Ela pode fazer estragos em nossas células e por isso tem que ser controlada a duração e a frequência de seu uso (ainda que nem sempre o façam, nem médicos nem dentistas e menos ainda os pacientes...). Outra coisa é ser “contaminado”, isto é, deixar que as partículas penetrem em nosso corpo e se alojem em algum dos nossos órgãos, de onde emitirão radiações que danificarão cada vez mais nossas células, à medida em que vão naturalmente se desintegrando.


Lembrei-me do que me contara Odesson Alves, de Goiânia, então Presidente da Associação de Vítimas do Césio 137: quando se descobriu o que estava acontecendo (vários dias depois de ter sido aberta num ferro velho a cápsula contendo césio radioativo de um aparelho de radioterapia criminosamente abandonado por uma clínica que deixou de funcionar), os que se considerava que tinham sido “contaminados” pelo césio foram submetidos a fortes jatos de água, para lavá-los das partículas que estivessem eventualmente coladas em seus corpos (249 pessoas foram contaminadas interna ou externamente, das quais muitas ainda estão vivas; mas quatro morreram um mês após o início da contaminação e outras mais tarde).


E por isso mesmo também os organizadores da nossa “viagem de estudos” deram instruções cuidadosas: só tomar agua de garrafas fechadas, não comprar alimentos de vendedores de rua ou diretamente de agricultores, andar sempre somente em terrenos pavimentados e não sobre terra, grama, musgos ou algas, não pegar pedras, pedaços de  metal ou madeira como lembranças, usar máscaras se o vento levantar poeira em áreas contaminadas que visitem, não encostar no chão medidores Geiger que usem, não fumar em áreas “contaminadas”. E, ao voltar ao hotel, lavar os cabelos e separadamente e primeiramente as roupas usadas e até os sapatos... Algumas dessas instruções deviam ser seguidas até em Tóquio, onde a contaminação também está presente em alguns bairros... E onde, por via das dúvidas, se deve sempre evitar comer cogumelos e algas marinhas, venham de onde venham, ou tomar agua sem procedência definida...


No mapa ao lado aparece em vermelho a zona mais fortemente contaminada em torno do local dos reatores acidentados (Fukushima Daiichi), com as cores se esmaecendo (até chegar a verde claro) à medida em que diminui o nível de contaminação. Note-se que o verde mais claro se aproxima de Tóquio, onde há vários “pontos quentes”, como se diz.


 


Essa tensão aumenta quando se tem filhos pequenos – as crianças são mais frágeis às radiações - que são proibidos de brincar em parques e jardins “contaminados”. Por isso uma das frases que mais aparecem escritas nos diferentes impressos e lugares é: salvemos nossas crianças! O governo e a própria comunidade organizada criam então espaços fechados e protegidos onde as crianças possam brincar e jogar. E organizam-se até lugares de férias, mais distantes, onde possam passar de tempos em tempos alguns dias em contato livre com a natureza.


E pensar que esses elementos radioativos que a tecnologia nuclear está disseminando pela terra afora, desde a bomba atômica de Hiroshima e com os mais de 2.000 testes nucleares feitos durante a Guerra Fria, são artificiais, isto é, obra da mão humana, como o são os “produtos de fissão” das mais de 400 usinas nucleares espalhadas pelo mundo – e o lobby das empresas que as constroem estão convencendo cada vez mais chefes de estado a fazê-lo... O plutônio - um desses “produtos” - existe na natureza só como traço. Hoje na França, no Japão, e até no Brasil (de que voltarei a falar mais adiante), há toneladas desse elemento perigosíssimo, estocadas à nossa espreita... Como me disse alguns dias depois o deputado que era o primeiro ministro quando aconteceu o “acidente”, é impossível aos seres humanos “conviver” com o plutônio... 


 


Compartilhando 4,0 microSieverts por hora...


Abdiquei da visita programada à “cidade fantasma” de Tomioka, uma das 11 cidades e vilarejos que foram totalmente evacuadas após o acidente na usina. Ela está a 130 km da cidade de Koriyama, onde estávamos hospedados, e a 10 km da usina. Achei que não precisava correr riscos desnecessários, e que os outros membros do Grupo poderiam me contar o que tinham visto. Eu os encontrei de novo quando voltaram para o almoço - espero sem terem sido contaminados andando em áreas não pavimentadas... - e me mostraram as fotografias que tiraram. Disseram que, se na penúltima parada antes de chegar o nível das radiações já era de 1,4 microSieverts por hora, em Tomioka era de 4,0...


O grupo lá ficou talvez pouco mais de uma hora. Felizmente não havia vento, de modo que os menos preocupados puderam deixar de usar máscaras... Podiam sentir alguma sensação estranha, mas seria mais psicológica. Enquanto andavam pela área o guia media a radioatividade em um certo número de pontos do espaço que podia ser visitado (havia partes interditadas e no mapa ao lado se indica que em parte do território da cidade de Tomioka seus habitantes terão dificuldades para voltar durante um longo tempo...). O que viram de fato foram os efeitos do tsunami – casas destruídas, carros de ponta cabeça. Conta-se que ladrões andaram levando carros abandonados, mudaram os seus números e os revenderam, com toda a contaminação que carregavam... Isso acontecera também em Chernobyl, com os pertences das casas abandonadas nas “cidades fantasmas” de lá.


Nas fotos que me mostraram, ao longe, uma das torres do reator acidentado, onde ainda se luta para manter refrigerado o reator fundido – o “corium” - com as consequências que são noticiadas: água usada para a refrigeração se acumulando em centenas de reservatórios, até ser de algum modo filtrada e jogada no mar, contaminando o Oceano Pacifico e seus peixes com partículas radioativas que durarão dezenas ou centenas de anos até deixarem de emitir radiações e se espalharão para os peixes da cadeia alimentar em que estão inseridos.


Há quem vá até áreas em torno do reator, muito mais radioativas, como eu soubera por relatos que li antes de viajar. São levados em visitas organizadas pela TEPCO para mostrar o que está sendo feito e demonstrar, para esses visitantes, que já não se corre tanto risco... Mas eles têm que trocar de ônibus depois de passarem certas barreiras, colocar máscaras para se proteger do ar que respiram e não sair dos ônibus em que entram. Estes ônibus, por sua vez, não podem sair da área para não levarem consigo poeira radioativa (que aliás se tenta fixar no chão e nos edifícios com jatos de resina). Milhares de trabalhadores (4 a 5.000) são ali levados diariamente, para retirar ou enterrar entulho radioativo e construir o que seja necessário, como as galerias para a barreira de gelo com que se pretende impedir que agua radioativa escape para o lenço freático e para o mar. Com vestimentas que os cobrem da cabeça aos pés, levam consigo dosímetros com que controlam seu tempo de permanência na área. Consta que ganham várias centenas de dólares por dia por esse trabalho, e consta também que são contratados por organizações mafiosas que recrutam moradores de rua... Ou quem sabe ex-moradores das áreas evacuadas, que perderam seu domicilio fixo...


Numa palestra feita no hotel em uma das noites de nossa “viagem de estudos”, pelo Diretor do Instituto de Saúde Global da Universidade da Califórnia do Sul (Dr. Jonathan Samet), que acompanhava o grupo, eu conhecera outro tipo de problema: aquele vivido pela população que foi evacuada, independentemente das doenças que possam ser provocadas ulteriormente pelas radiações.


Tiveram que abandonar o mais depressa possível suas casas, com tudo que elas continham, sem a possibilidade de voltar para recolher o que desejassem, nem existem compradores se quiserem vende-las. Foram morar em abrigos coletivos ou nas casas de filhos e parentes até terem direito a um alojamento provisório, construído às pressas pelo governo, em que ficariam até que a área fosse descontaminada - o que não se vê muito claro quando acontecerá. Perderam seus bens, empregos ou trabalho, estão sem perspectiva de futuro. Se o governo disser que já descontaminou a área em que viviam e podem voltar, perdem a ajuda de custas se não voltarem... E se, por temor da irradiação, saíram voluntariamente de lugares que não foram oficialmente evacuados, não têm direito a esses alojamentos e muito menos a ajudas de custo. São discriminados, como eventuais portadores de elementos radioativos. Os jovens têm dificuldade de se casar, por temor de filhos malformados...


Conta-se que muitos desses “empestados” voltam para o lugar que deixaram para se suicidarem. Quantos estariam se autodestruindo com empregos na área da usina?


Visitamos um local com um grande número de alojamentos, construídos num pátio cimentado. Depois de um encontro num salão comum com 6 dos seus moradores (cinco mulheres e um homem), em que contaram como viviam, visitamos em pequenos grupos alguns dos alojamentos: quartos únicos compridos, de uns 10 metros por 2 ou 3, um ao lado do outro, com os equipamentos domésticos básicos, caixas, armários, estantes e cabides da porta até o espaço do fundo usado para dormir. Alguém perguntou: trouxeram alguma coisa de suas casas? Resposta óbvia: Não, tudo que tínhamos ficou por lá. O que está aqui obtivemos depois.


Estão ali há mais de três anos. Para diminuir a aridez do quadro de vida, conseguem cultivar pequenos vasos de flores ao lado da porta de entrada. Segundo os dados relativos a Tomioka, o tsunami vitimou, nessa pequena cidade, somente 18 pessoas, por incrível que pareça. Mas do acidente da usina para cá morreram 300 pessoas da comunidade, por stress, depressão ou suicídio.


 


Discurso de uma vereadora


No dia da visita a Tomioka, à noite, tivemos a visita, no hotel, de uma vereadora da cidade de Koriyama, a sra. Ikuko Hebiishi . Vale a pena citar alguns trechos do discurso que nos fez, depois do jantar:


Nós, povo de Fukushima, aprendemos um fato crucial: se um acidente faz com que um reator nuclear numa usina de eletricidade ultrapasse um ponto crítico, ninguém absolutamente pode controla-lo, e é totalmente impossível parar a disseminação de radiações na atmosfera. Logo depois do acidente, as pessoas que viviam num raio de 20 km a partir da usina nuclear de Fukushima-Daiichi foram forçadas a fugir de suas cidades levando consigo só algumas coisas. E não estão podendo voltar a viver em suas casas. Perderam seu modo de vida e a motivação para viverem. Famílias se dividiram e seus membros tiveram que viver em lugares diferentes. Comunidades locais também foram divididas Eles vivem em áreas de evacuação em lugares que não conheciam e enfrentam condições de vida desconfortáveis. Tudo isto fez o povo adoecer. Alguns entraram em depressão, outros morreram na solidão ou se suicidaram. Este quadro trágico está aumentando. Hoje contamos com aproximadamente 130.000 refugiados do desastre nuclear, incluindo aqueles que se juntaram a eles por vontade própria. Até as pessoas que vivem fora da zona de evacuação forçada foram obrigadas a enfrentar a ameaça invisível da exposição constante a doses baixas de radiação. Por toda a região de Fukushima há pontos de forte contaminação e a preocupação com o risco de problemas futuros de saúde pressionam as mentes das pessoas.


Apesar disso tudo, o que as autoridades têm feito é espantoso. Elevaram a dose máxima anual aceita de radiação de 1 microSievert para 20 microSieverts. Excluíram várias áreas das zonas interditadas e nelas organizaram eventos com pessoas de fora, na campanha que chamaram de “Fukushima é um lugar seguro”. Estas iniciativas na verdade significam que as pessoas literalmente se tornaram cobaias e serão negligenciadas para sempre.


Segunda a teoria aceita, a possibilidade de desenvolvimento de câncer de tiroide em crianças é de 1 a 2 por um milhão. Em outubro de 2014 as autoridades revelaram que 103 casos de câncer da tiroide foram diagnosticados em 300.000 crianças examinadas em Fukushima desde o acidente nuclear. Este número é 150 a 300 vezes a taxa de ocorrência normal. (...)


Grande quantidade de elementos radioativos contaminou a natureza. Não podemos mais nos beneficiar da riqueza da natureza em nosso modo de vida. Estamos por isso com muita raiva e muita tristeza. Num ambiente como esse não podemos deixar nossas crianças brincarem livremente no parque ou em qualquer outro lugar. Não é normal que mais de 50 parques infantis tenham sido construídos em locais fechados desde o acidente nuclear em Fukushima. (...)


O trabalho de contenção no local da usina acidentada parece que vai durar indefinidamente. Ela ainda emite mais ou menos 10 milhões de Becquerels (Bq) de radiações por hora na atmosfera e drena 4 milhões de toneladas por dia de agua contaminada com radioatividade. (...)


Aumenta muito atualmente no Japão a incidência de terremotos e fenômenos climáticos incomuns. Um novo acidente como o de Fukushima pode acontecer a qualquer hora e em qualquer lugar enquanto existirem usinas nucleares em nosso país. A coexistência do nuclear e do humano é totalmente impossível. O governo e as companhias de eletricidade deveriam fazer um manual de emergência para acidentes nucleares e para a evacuação da população, fechar todos os reatores e fazer um plano de desmantelamento de todos.


Vivendo esse trágico desastre, sofrendo por causa dele, sentindo raiva, nós, povo de Fukushima nos esforçamos para aproveitar todas as oportunidades que temos para falar com as pessoas em torno de nós, em nosso país e em todo o mundo, para lhes mandar nossa mensagem: nunca deixaremos que a “memória de Fukushima” desapareça.


Cabe comentar, no discurso da vereadora, sua crítica à decisão de elevar “a dose máxima anual aceita de radiação de 1 milleSievert para 20 milleSieverts”, para efeito de evacuação da população. Esta é a dose máxima aceita para os que trabalham nas usinas. Mais tarde, em Tóquio, fiquei sabendo, pela pesquisadora francesa Cécile Asanuma-Brice, que um dos Ministros que tomaram essa decisão deixou escapar que se adotassem como dose máxima o nível adotado para esse mesmo efeito em Chernobyl - 5 milliSieverts - teriam que evacuar parte das duas maiores cidades da região administrativa, Fukushima e Koriyama, com mais de 300 000 habitantes cada uma; o que tornaria “impossível o funcionamento administrativo da região”, sem contar as consequências quanto a “indenizações suplementares”...


Esta forma de abordar o problema da segurança da população lembra-nos a usada no Brasil para reduzir a 5 km o raio da área em torno das usinas de Angra dos Reis incluída no Plano de Emergência para o caso de acidente... Se aqui forem adotados os raios de 20 ou de 30 km que foram necessários em Fukushima e Chernobyl, teria que ser dada atenção também aos 170.000 habitantes de Angra, a 15 km das usinas.


 


“A, A, A!” Segurança, seguridade, ação!


Na manhã seguinte fomos visitar um dos “clubes familiares” de Koriyma, criados por cidadãos e cidadãs que decidem se organizar como sociedade civil para enfrentar os desafios do acidente. O nome da sua associação, “A, A, A!”, corresponde às letras com que começam, em japonês, as palavras segurança, seguridade social e ação, seus três objetivos.


Lá reencontramos a vereadora que nos tinha falado na noite anterior (e que aparece, na foto abaixo, no fundo à direita).


Sua Presidente é uma jovem mãe que fugira de Fukushima com seu marido, quando do acidente. Decidiram no entanto voltar para manter o contato com sua comunidade – os filhos também não queriam se separar de seus amigos – e enfrentar os problemas com ela. Fazem um trabalho de formação e informação, com reuniões mensais com mães e agora também com pais, que vão se dando conta da gravidade da situação (muitos se sentem divididos frente às informações dadas pelo governo e pela TEPCO, onde muitas vezes trabalham). Tem aparelhos que medem a radioatividade em alimentos que seus associados lhes trazem, já que não confiam muito nas medidas dos órgãos do governo. Perto do local da associação há um parque público contaminado, ao qual muitos pais levam inadvertidamente seus filhos para brincar sem usar máscaras. Membros da associação medem regularmente o nível de radiação em mais de 200 pontos do parque e elaboram um mapa atualizado dessas medidas (como o mostrado ao lado). Neles se vê que em média o nível está hoje em torno de 0.50 microSievertes por hora, o que já é um nível preocupante, mas há pontos com muito mais altos níveis, alguns chegando a 1,47.


O governo coloca mostradores em muitos pontos da cidade (e dentro do parque), medindo permanentemente a radiação para informar a população (como os mostradores que nos dizem a hora e a temperatura ao longo de nossas avenidas). Mas a população sabe que esses mostradores (foto ao lado de Cécile Asanuma-Brice), instalados sobre placas de ferro, que medem a radiação a um metro de altura, com limpezas frequentes no entorno, estão devidamente “descontaminados”, isto é, foi afastado deles tudo que pode conter partículas radioativas.


A “descontaminação” consiste aliás em retirar a terra e folhas contaminadas e as enterrar em outro lugar ou as cobrir com concreto, já que parece ser impossível separar as partículas radioativas. O que significa que áreas “descontaminadas” (a informação é de que até agora 30% já o foram) podem se retransformar em áreas “contaminadas”, graças também à circulação das partículas radioativas, na agua que entra na terra e reaparece subindo pelos troncos das árvores...


O espírito de desconfiança no que faz e diz o governo é evidente. A Presidente da Associação e outro de seus membros contaram várias coisas que explicam a “raiva” a que se referiu a vereadora quando nos falou. O governo tem medo de que o pânico tome conta da população (medo que existe também aqui no brasil, se começamos a falar demais dos riscos de Angra, e que no Japão começa a alcançar os próprios operadores de usinas...). Para se contrapor a esse risco de pânico o governo nacional e os governos municipais fazem uma ampla distribuição de folhetos minimizando os riscos das radiações e apresentando a energia nuclear como um progresso: produz eletricidade, cura doenças, cria empregos, existe normalmente na natureza... Porque falar mal da radiação? “Não se preocupem com isso”, diz o governo. “Sim, nos preocupamos”, dizem os participantes dos “Clubes”. O cumulo do cinismo foi o de um funcionário do governo que disse que as pessoas que sorriem não são irradiadas... E mais: que isto foi comprovado com experiências feitas com animais... (no debate de que participei ao passar pela França, à minha volta, vi um filme com estas declarações devidamente gravadas). Obviamente pelo menos esta afirmação levantou uma grande polêmica e talvez esse funcionário tenha sido afastado... Lembrei-me do nosso “Sorria, você está sendo filmado”.


A coragem e o espirito de serviço das pessoas que conduzem essas associações ajuda a acreditar nos seres humanos, contrabalançando a tristeza que nos causam os burocratas “a serviço dos interesses de suas organizações...” 


Na tarde desse dia nos deslocamos até Fukushima, a capital administrativa da região, com seus 300.00 habitantes, a 250 km de Tóquio e a 90 km do reator acidentado.


Não pudemos visitar hospitais para o atendimento de vítimas, como estava programado, mas um grande parque infantil coberto, protegido (como o da foto ao lado), para o lazer de crianças, já que nas escolas as aulas tinham que ser dadas com as janelas fechadas, inclusive no verão, e não se podia ter atividades fora da sala de aula... Num outro espaço como esse que visitamos, uma biblioteca infantil, alguém do Grupo perguntou ao responsável se acreditava nas informações do governo. Sua resposta foi significativa: “Quero acreditar...”


 


Retomando uma visão de conjunto


Depois da visita a Fukushima estava previsto um circuito pela costa oeste do Japão, que nos levaria de volta a Tóquio passando pela belíssima cidade de Kyoto, ao sul da capital. Abdiquei desse circuito para voltar num trem-bala diretamente a Tóquio, onde poderia passar dois dias obtendo mais informações sobre o objeto de minha ida ao Japão.  


Em Tóquio, além de ir à “esquina antinuclear” falei com várias pessoas extremamente informadas e ativas nessa luta. Obtive ainda mais explicações sobre como se processa, com a chuva, a “descontaminação natural” – o que é uma falácia – das áreas que receberam partículas radioativas, assim como sobre os modos como se controla a informação existente sobre a real situação vivida pelos japoneses depois do desastre e por causa dele.


Entre as pessoas que encontrei estava a pesquisadora francesa que já citei neste texto, Cécile Asanuma-Brice, da Universidade de Lille, da França, que trabalha em Tóquio junto à Casa Franco Japonesa de Cultura. Ela me enviou depois alguns de seus artigos publicados na França em 2013, dois dos quais estou agregando como anexos a este texto: “Fukushima : nossa vida, agora, é cavar nosso tumulo e  “Crime de estado” em Fukushima: “a única solução é a fuga”.


Por ela fiquei sabendo também que as autoridades japonesas procuram convencer as famílias evacuadas que a “descontaminação” em curso permitirá que voltem às suas casas, e que as crianças poderão retomar a frequência às escolas. Mas ela cita em um de seus artigos o que disse a respeito um técnico do Instituto de Radioproteção e Segurança Nuclear da França, em missão em Fukushima : « Perto das casas, os níveis voltaram talvez a serem toleráveis em alguns lugares, mas é inútil pensar em ir aos bosques colher cogumelos e os comer, porque são esponjas de radioatividade. » 


Soube ainda que está próximo do limite a capacidade de armazenamento de combustível usado nas “piscinas refrigeradas” adjacentes aos reatores, e que esse limite será atingido rapidamente se as usinas forem reabertas, com o que se terá que parar de novo os reatores por causa do esgotamento dessa capacidade.


Lembrei-me da sentença já dada por um Juiz Federal do Brasil sobre essa mesma questão, relativa às “piscinas” de Angra I e II, e cujo próximo esgotamento também poderá levar a que tenham que parar, mas estou sem saber se o que determina em sua sentença para evitar isso está sendo feito. Lembrei-me ainda do incrível parecer do deputado relator de um projeto de lei que determinava que não se construísse nenhum reator no Brasil enquanto não estivesse resolvido o problema da estocagem dos rejeitos radioativos. Esse parecer, que foi aprovado pela comissão em que o projeto se encontrava, levando ao seu arquivamento, argumentava que não tinha sentido parar a desenvolvimento da tecnologia nuclear no Brasil por um problema desses, já que em nenhum lugar do mundo ele tinha sido resolvido...


Depois de botar uma gravata (segundo as normas dos parlamentos brasileiros...), visitei uma senadora vinculada aos movimentos sociais, a sra. Mizuho Fukushima (coincidência de nomes...). Perguntando-lhe sobre se estaria em negociação um acordo nuclear com o Brasil, ela me disse que era possível porque o Japão já tinha acordos nucleares para exportar equipamentos com o Vietnam, a Jordânia e a Turquia, e o terá proximamente com a Índia. Ou seja, assim como o governo da Alemanha, que incide numa dupla moral se continuar apoiando a energia nuclear no Brasil ao mesmo tempo em que desliga seus reatores, o governo do Japão não se envergonha de “exportar acidentes” – como dizia um dos cartazes dos movimentos antinucleares japoneses, em manifestação realizada quando saiu a notícia da eventual celebração de acordo nuclear Brasil-Japão, por ocasião de uma visita da Presidente Dilma ao Japão. Esta visita acabou não se realizando, por conta das manifestações de junho de 2013 no Brasil. Mas a senadora também me deu a boa notícia de que estava se tornando difícil encontrar bancos privados dispostos a financiar o comercio de reatores, dados os riscos dessa tecnologia.


Falei em seguida, mais longamente – quase uma hora - com o ex-primeiro ministro do Japão Naoto Kan, que cumpria essa função quando ocorreu o desastre de Fukushima. Ele era pró nuclear quando primeiro ministro, até tendo sido quem completou as negociações para celebrar o acordo de exportação com o Vietnam. Mas a partir do acidente se tornou antinuclear, revoltando-se inclusive com a insuficiente informação que lhe era dada. Depois de deixar o cargo fez várias viagens a países que usam a energia nuclear, para se informar in loco dos problemas, especialmente os relativos aos rejeitos. E diz com todas as letras, como já citei, que é impossível aos seres humanos “conviver” com o plutônio (um dos mais perigosos desses rejeitos) ...


Sua mudança de posição veio reforçar o campo de primeiros ministros anteriores a ele que passaram pelo mesmo processo: Junichiro Koizumi e Morihiro Hosokawa, hoje engajados em verdadeiras cruzadas antinucleares. Esses ex-primeiros ministros antigos já não estão no parlamento, mas Naoto Kan é ainda deputado. Fui informado no entanto de que se encontra isolado entre seus pares... (o “conluio” denunciado pela Comissão de Investigação do Parlamento - ver bilhete 2 - parece ser efetivamente forte...). E constatei que ele é também criticado por militantes antinucleares que prefeririam que, na ocasião do acidente, tivesse feito mais do que fez para evita-lo ou minimizar suas consequências. Para se ver como é exigente a atividade política. De qualquer forma, Kan teve uma experiência de vida que lhe custou o cargo e o transformou. Esperemos que nos ajude a todos.


Concluindo a etapa


Os dois dias em Tóquio foram portanto extremamente ricos, até o final da tarde em que tive que me deslocar para o aeroporto pelos trens ultra-rápidos de que os japoneses dispõem. Nessa tarde tive uma reunião com quase 20 pessoas, de diversas organizações. Quem nos acolheu foi um antigo e reconhecido militante pacifista e intelectual japonês, Ichiyo Muto, a que já me referi no início deste texto. A reunião foi numa grande sala da entidade que criou em 1998, a People’s Plan 21 (Plano do Povo 21). Essa entidade organizara na década de 1990 uma série de eventos na Ásia com vocação para ser um Fórum Social Mundial asiático. Eu o conhecera em viagem em 2009 ao Japão, onde fora para palestras sobre o Fórum Social Mundial.


Logo que cheguei ao local de reunião Muto me passou um texto seu de 42 páginas, publicado em 2013 pela Inter-Asia Cultural Studies (vol. 14, no. 2, 171-212, http://dx.doi.org/ 10.1080/14649373.2013.769744), com um longo mas sugestivo título: A construção de uma capacidade armamentista nuclear e a soberania do Japão no pós-Guerra: Fukushima e a genealogia das bombas atômicas e das usinas nucleares.


Na resenha inicial desse texto lemos: Este ensaio foi escrito sob o impacto da catástrofe nuclear de 2011 em Fukushima, para situar a questão da energia nuclear num contexto mais amplo que energia e meio ambiente. O “uso pacifico da energia nuclear” foi trazido pelos Estados Unidos em meados dos anos 50 como parte de sua guerra psicológica para limpar o poder atômico da imagem horrível do massacre de Hiroshima e Nagasaki. O “uso pacifico” como tal foi aceito como um símbolo de progresso até por intelectuais de esquerda. Entretanto, os grupos dirigentes japoneses situaram esse uso no seu contexto militar de longo prazo. Nas décadas seguintes, o governo realizou enormes programas nucleares dizendo que eram genuinamente para suprir o país de energia elétrica. Mas de 1965 a 72 o governo realizou sérios estudos sobre armas nucleares japonesas, concluindo que embora o Japão devesse continuar não-nuclear “por todos os tempos”, ele guardaria sua capacidade técnico-econômica pronta para produzir bombas nucleares em qualquer momento que precisasse. Este ensaio examina o poder nuclear japonês em relação aos fatores mais importantes da soberania Japonesa do pós-guerra – a Aliança Americano-japonesa de segurança (Anpo), tendo Okinawa como pivô da Anpo, a ambição direitista de reviver a glória do Império de antes da Guerra,  Japão nas relações China-Estados Unidos. O desastre de Fukushima e a resistência de Okinawa ao seu status de colônia militar estremeceu toda esta estrutura e arruinou a soberania do pós-guerra. O povo agora está sendo chamado a definir o que vem depois.


No seu primeiro parágrafo ele diz então, como que resumindo tudo que eu observara: Nas estruturas nucleares comprometidas da Fukushima-Daiichi, que continuam a vomitar radiação sem cessar, não posso senão identificar a presença e a atividade de uma vontade humana coletiva. E não estou usando uma metáfora. Estas ruinas vivas são, de fato, a encarnação da vontade daqueles seres humanos que construíram e administraram o regime nuclear. As ruinas são apenas a consequência material de suas ações, que se desenvolveram por décadas. Durante o reino deste regime nuclear, sua vontade foi mascarada por promessas de energia limpa e um brilhante futuro. O regime e os meios de comunicação leais a ele nos disseram constantemente que o conforto, as facilidades de vida, a prosperidade e o consumo de massa seriam impossíveis sem energia nuclear e nós - a maioria da sociedade – engoliu esta ideia inteiramente. Hoje, entretanto, a verdadeira natureza do regime foi revelada no que é: uma hedionda besta, por assim dizer, que envenena tudo que toca e continua sua infindável destruição da vida – mostrando-se ser uma espécie imortal que resiste a tudo que seja feito para pará-la e matá-la.


A conclusão desse primeiro trecho do texto de Muto nos explica porque ele e muitos se referem ao que aconteceu em Fukushima não como um “acidente” (ainda que se diga que foi grave) mas como catástrofe ou seu prenúncio: como a contaminação radioativa continua a afetar os corpos humanos e o meio ambiente por um tempo extremamente longo, esta destruição é irreversível. É claro então que é inaceitável o fato de termos 54 usinas nucleares e instalações adicionais para o reprocessamento de combustível usado, espalhadas em amplas faixas das costas de nosso arquipélago propenso a terremotos. Se mais Fukushimas ocorrerem, o Japão terá poucas possibilidades de sobreviver como sociedade.


 


Uso pacifico e uso militar da energia nuclear


Só pude começar a ler efetivamente o texto de Muto no avião de volta. Encontrei então, além desses trechos que cito, dados extremamente importantes sobre a relação entre os usos militar e pacifico da energia nuclear – assunto que os nucleocratas brasileiros afastam de plano.


Ele participara ativamente do imenso movimento social japonês contra os testes nucleares, que cresceu especialmente após o teste no arquipélago de Bikini em 1954. Nessa área se encontrava um barco pesqueiro japonês (Daigo Fukuryu Maru), que recebeu a “chuva de cinzas” que cai depois desses testes. Uma petição desse movimento, iniciada modestamente por um grupo de mulheres cujos maridos estavam entre as vítimas das “cinzas”, recolheu, na época, 32 milhões de assinaturas.


Muto pode assim acompanhar de perto o lançamento no Japão do programa “Átomos para a Paz”. Segundo ele esse programa, proposto em 1953 pelo Presidente Norte-americano Eisenhower, em plena corrida armamentista da Guerra Fria, criava condições para o desenvolvimento de armas nucleares através da construção de usinas de produção de eletricidade, que permitia continuar com a pesquisa em energia nuclear.


Ele diz que, no Japão, o “Átomos para a Paz”, lançado com muitos grandes eventos em grandes cidades, culminando em Hiroshima, tinha a função clara de mudar a imagem diabólica da energia atômica, criada com as bombas de Hiroshima e Nagasaki. Eles revestiam essa imagem com outra, angélica, de algo voltado para o bem, graças aos benefícios proporcionados pelo uso da energia nuclear na produção de eletricidade e na medicina, como uma benção aos humanos. Nessa perspectiva, com vistas a apagar de vez a lembrança do genocídio, o governo norte-americano chegou a propor, em sua guerra psicológica, que se construísse exatamente em Hiroshima, em 1957, em vez de um hospital para 6.000 sobreviventes da bomba, a primeira usina nuclear japonesa.


Mas no Japão a preocupação armamentista atropelava a imagem pacifista do programa: o Partido da Inovação, no poder em 1954, quando estava terminando a ocupação do Japão pelos Estados Unidos e já depois de ter sido lançado o “Átomos para a Paz”, justificou seu orçamento militar pelo fato de ser essencial, no quadro da situação do Japão, a educação e o treinamento do povo japonês para compreender o armamento nuclear e adquirir habilidade para usá-lo. Oyama, o então primeiro ministro, disse, textualmente: “é da mais alta prioridade que obtenhamos a capacidade de entender as armas nucleares”. E isto se tornava possível com um programa de construção de usinas nucleares. Este naturalmente deslanchou nos ano 60, teve um pico nos anos 70 mas prosseguiu até 2.000, criando no Japão o que Muto chama de “poder nuclear” ou “regime do poder nuclear”, que mantem uma tecnologia nuclear avançada e uma indústria nuclear dentro do pais, com o objetivo de reforçar as bases da “segurança nacional”.


Acredito que seria muito útil traduzir e discutir no Brasil este texto, que caiu em minhas mãos quase ao embarcar de volta, para compreendermos melhor o quadro internacional em que se situa a força do lobby nuclear entre nós. Há por exemplo alguma relação, no quadro da Guerra Fria, entre o que ocorria no Japão nos anos 70 e o acordo nuclear firmado em 75 pelos nossos militares com o governo alemão, para a construção de usinas nucleares no Brasil?


 


Rumo a uma maior articulação mundial da luta antinuclear


Mas o principal do encontro na sede da People’s Plan 21, sob a benção de Muto, não foram essas informações, de que me inteirei já a milhares de metros de altura, mas o surgimento de uma ideia que pode mudar o quadro na luta antinuclear no mundo: realizar no Japão (em 2016, por exemplo, por ocasião do 5º aniversário do desastre de Fukushima), um Fórum Social Temático Mundial sobre a energia nuclear.


Usando a metodologia dos Fóruns Sociais Mundiais, em que os temas discutidos são propostos pelos participantes, militantes e organizações do mundo todo poderiam marcar um encontro no Japão, que é o país atualmente mais atingido pelas consequências da manipulação insana do átomo. Lá ouviriam os testemunhos dos que estão sofrendo essas consequências e as constatariam “ao vivo”, assim como discutiriam todos os dados históricos e argumentos que existem para que o mundo um dia seja libertado das enormes ameaças da contaminação de todo o planeta pela radioatividade - que tornará a Vida impossível - e do apocalipse nuclear -que terminará com a Vida na Terra (duas formas de se chegar ao “fim do mundo”, que estão sendo construídas vagarosamente pelos próprios seres humanos).


Uma proposta sobre a organização desse Fórum estará circulando em breve, para que pessoas e movimentos sociais, de todos os países em que essas ameaças se apoiam ou crescem, possam organizar-se para contribuir e participar. Cogitou-se mesmo que um primeiro encontro preparatório, rumo a esse Fórum Social Temático, fosse feito durante o Fórum Social Mundial na Tunísia em março de 2015, e um segundo em Hiroshima em agosto, por ocasião das atividades que lá se realizarão em torno do 70º aniversário das bombas atômicas lançadas no Japão.


 


“Considerações finais”...


As “considerações finais” com que termina toda entrevista ou debate na TV podem ser uteis também para encerrar relatos e reflexões escritas.


Um brasileiro que passe pela experiência que tive, visitando Fukushima, não pode deixar de se perguntar: para que tudo isso? Para que essa insistência em construir usinas nucleares?


Para que serve ameaçar tanta gente com tanto sofrimento, nos países em que se decidiu construir usinas nucleares para produzir eletricidade? Hoje em dia se sabe que mais dia menos dia um acidente grave (ou “severo”...) pode acontecer, sem precisar de terremotos nem tsunamis, mas pela ocorrência de conjuntos combinados de falhas de diferentes tipos, incontroláveis, como aconteceu em Three Miles Island, em Chernobyl e agora até no Japão, que dispõe de alta tecnologia e tem uma população ultra disciplinada e responsável. 


Para que serve arriscar que extensos territórios sejam interditados à presença humana, envenenando-os com partículas radioativas por centenas e milhares de anos, inclusive áreas tão belas como, no caso brasileiro, às do entorno de Angra dos Reis?


Para que serve deixar para muitas gerações futuras a herança de toneladas e toneladas de rejeitos radioativos, produzidos pelas usinas ou que resultam de seu desmantelamento quando esgotado seu tempo de uso, e que se transformam em novos riscos se não se encontrar uma maneira segura de guarda-los “pela eternidade”?


Vale a pena satisfazer a esse preço o orgulho dos cientistas e tecnocratas que se extasiam com sua capacidade de dominar os segredos do átomo?


Vale a pena atender a esse preço a necessidade de aumentar numa porcentagem ínfima, como ocorre no nosso caso, a quantidade de energia elétrica produzida no país, quando isto pode ser feito com outras tecnologias menos perigosas, como vem sendo provado pelo mundo afora?


Vale a pena garantir a esse preço os lucros dos investidores e empresas nacionais e estrangeiras que arrancam do poder público o dinheiro necessário para construir as usinas, sem pensar nem no custo de seu desmantelamento (do qual não se extrai nenhum lucro), nem no custo dos acidentes (que pesarão nos recursos administrados pelo governo e que já são insuficientes para responder às necessidades coletivas)?


Vale a pena assegurar a esse preço que se domine, através da construção e operação de usinas nucleares para produzir eletricidade, a tecnologia necessária para integrar o grupo de nações detentoras de armas atômicas com que se ameacem mutuamente mas que nunca poderão ser usadas, a menos que se decida produzir o apocalipse nuclear?


Constatei, em Fukushima, que um acidente grave numa usina nuclear é um enorme desastre ecológico e social, com efeitos que perdurarão por muitas gerações, que precisa ser evitado a qualquer custo. Voltei de lá convicto de que não devemos terminar a construção de Angra III para colocá-la em funcionamento, e de que temos que fechar as usinas de Angra I e Angra II o quanto antes possível, antes que seja tarde demais, e começar seu desmantelamento.


A guerra de cujas vítimas a Cruz Verde quer ajudar a cuidar não foi deflagrada por uns Estados contra outros, mas por uma tecnologia impessoal e supranacional de manipulação altamente complexa da energia contida no átomo. Ela se apoia nessa complexidade e no segredo das decisões – própria aos temas ligados a questões militares - para poder contar com a cumplicidade irresponsável de políticos ambiciosos, de empresários gananciosos e de técnicos insanos. E se apoia também na passividade dos cidadãos, mantidos intencionalmente desinformados, até que um acidente ocorra na manipulação dessa partícula que até há muito pouco tempo se pensou que era a menor de todas no nosso mundo material.


Pierre Curie, ao ganhar o Prêmio Nobel de 1903 juntamente com sua esposa Marie Curie, perguntou em seu discurso se a Humanidade estaria preparada para entrar nos segredos dessa partícula. Tudo parece indicar que, até hoje, não. A guerra que disso resultou é ainda mais suja que as outras. Ela começou de fato com o genocídio ainda impune das bombas de Hiroshima e Nagasaki e se voltou pouco a pouco, vestida com o manto enganoso do uso pacifico da energia nuclear, contra todos os seres humanos, contra a natureza e contra a Vida, como eu disse no início deste texto[c1] .


Espero que estas notas de viagem despertem em muita gente a vontade se informar mais sobre todas essas questões. E que isto nos leve a todos à vontade de participar o mais possível da difícil luta por um Brasil livre de usinas nucleares.


 


 







[1] Apesar da gravidade dos problemas criados pelo uso da energia nuclear, apenas um candidato, Eduardo Jorge (PV), abordou o tema durante a campanha presidencial. Ele divulgou o pedido de audiência feito à Presidente da República e ao Embaixador da Alemanha para tratar do Acordo Nuclear Brasil-Alemanha de 1975 – que seria tacitamente renovado pela 5ª vez em 19 de novembro de 2014 - e questionou a candidata Dilma sobre o assunto, no debate presidencial, organizado pela CNBB. 


 









 [c1]Ais amigos