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Esperança, a última que morrre
2014-05-24

sobre as dificuldades da luta antinuclear - Para os que lutam por um Brasil livre de Usinas Nucleares, a primeira quinzena de maio foi pródiga em más notícias, mas também em informações impressionantes.



 
 

Esperança, a última que morre


Chico Whitaker, 20 de maio de 2014


Para os que lutam por um Brasil livre de Usinas Nucleares, a primeira quinzena de maio foi pródiga em más notícias, mas também em informações impressionantes.


- O Presidente Evo Morales anunciou orgulhosamente que enfim a Bolívia começará a usar a energia atômica. Graças ao apoio da indústria nuclear argentina, pouco preocupada com os problemas que essa tecnologia cria...[1] “Para fins pacíficos”, diz evidentemente o Presidente. Só que a produção de eletricidade é também um fim pacífico, ou seja, não está excluída a construção de usinas nucleares na Bolívia.


- Um projeto de lei na Câmara dos Deputados determinava que não fosse construída mais nenhuma usina nuclear no país enquanto não se resolvesse a questão do depósito definitivo de rejeitos radioativos. O parecer do relator na Comissão de Ciência e Tecnologia foi negativo e o projeto foi arquivado (há decisões de Comissões que são “terminativas”, isto é, terminam a tramitação dos projetos). Numa demonstração cabal de que a desinformação sobre o nuclear é um mal que atinge também nossos representantes políticos, a Comissão engoliu o incrível argumento usado pelo relator: países com muito mais usinas ainda não têm depósitos definitivos; por que teríamos nós que parar de construir usinas por não ter depósitos?[2] E pensar que, não fosse a coincidência com a votação do Código Florestal, esse deputado teria participado da comitiva que visitou Chernobyl no ano passado...  


 - Foi derrotada por 465 votos a 110, no Parlamento da Alemanha, uma proposição apresentada pelo Partido Verde desse país, para que ele encerrasse seus acordos nucleares com o Brasil e com a Índia – já que, se não quer o nuclear, a Alemanha não poderia, “moralmente”, apoiá-lo em outros países... O acordo com o Brasil, feito em 1975 pelos militares e totalmente obsoleto, já foi prorrogado tacitamente quatro vezes e corre o risco de o ser pela quinta vez, por mais 5 anos, em 19 de novembro de 2015...[3]


Mas como se essas notícias não bastassem, a empresa russa Rosatom, sedenta de negócios de construção de usinas em países pouco explorados pela tecnologia nuclear, anunciou que está instalando no Rio de Janeiro um escritório para a América Latina[4]...


Por outro lado o Ministério Público Federal constatou, junto com o Tribunal de Contas da União, que está se esgotando a capacidade do armazenamento chamado provisório de rejeitos radioativos nas usinas de Angra 1 e 2 (“representando riscos à vida da população”), o que poderá levar até à interrupção de seu funcionamento em mais dois ou três anos. Mas a Eletronuclear afirma que “tem total controle da gestão dos rejeitos” e mantem bloqueada, judicialmente, uma sentença da Justiça Federal de um ano atrás para que se enfrente adequadamente esse problema.[5] Nem convém falar do que nos espera com Angra 3...


E para coroar essa má onda, a Declaração da CNBB sobre a Questão Agrária, aprovada em sua Assembleia Geral de 2014, surpreendentemente não fez nenhuma referência às usinas nucleares, nos parágrafos sobre o meio ambiente e a energia (156 e 157). O que é sem dúvida desanimador, porque desde 2012 a insanidade das usinas nucleares vem sendo denunciada a várias instâncias da CNBB (inclusive, longamente, em sua Assembleia do ano passado). É certo que poderia ter sido “cavada”, nessa Declaração da Assembleia, no bom estilo político tradicional, pelo menos uma pequena frase não comprometedora, como por exemplo: “cuidemos para não cair no que parece ser a armadilha da energia nuclear” ... Mas foi melhor assim: seria um falso posicionamento. A ausência total de menção ao tema nas discussões, ao se tratar especificamente da energia, demonstra claramente que o assunto está ainda muito distante das preocupações dos Bispos, assessores, sacerdotes, religiosos e leigos que participaram da Assembleia...


O que fazer? A angustia não nos deixa outra alternativa senão insistir...


Menos mal que pelo menos um jornal publicou, também em maio, uma entrevista com um ex-Ministro do Meio Ambiente da Alemanha, que disse sem rodeios: nenhuma usina nuclear é segura[6]. Ele já tinha estado no Brasil em 2004, quando negociou o encerramento do acordo nuclear Brasil Alemanha de 1975, já referido acima. Nossa Ministra do Meio Ambiente de então, Marina Silva, o apoiava. Mas não pensavam da mesma forma o Ministério de Economia da Alemanha nem nossa então Ministra das Minas e Energia, Dilma Roussef...


Na entrevista lhe foi perguntado o que achava desse Acordo. Sua resposta: É nostalgia, deveria virar história. Não respondeu tão diretamente a outra pergunta: Aqui não há debate sobre se o país precisa ou não de nuclear. Como esse debate pode começar? Mas temos que fazer a nós mesmos essa pergunta. E completar: começar e recomeçar, muitas vezes...


E ainda bem que foram publicadas (sempre em maio) duas matérias extremamente elucidativas – e impressionantes – para alimentar a luta contra a desinformação. A primeira sobre a construção de um novo “sarcófago” para conter a radioatividade que recomeçou a vazar em Chernobyl (“Enterrando Chernobyl”, na Folha de São Paulo republicando o New York Times de 13 de maio de 2014 - ver www.mundosustentavel.com.br); a segunda sobre os custos da desmontagem das usinas nucleares na Alemanha (“Empresas querem empurrar a conta de usinas nucleares para o governo alemão” – jornal Der Spiegel de 19 de maio de 2014, ver www.xonuclear.net). Essas matérias calam toda e qualquer insistência em dizer que energia nuclear é barata. 


Diz-se que a esperança é a última que morre. Mas bom mesmo será acreditar que nunca morrerá. Pelo menos segundo a visão de Deus, pelo que nos conta o poeta francês Charles Péguy em seu belo poema sobre a segunda virtude[7]:


“A fé de que eu mais gosto, diz Deus, é a esperança.


A fé não me impressiona.


Ela não causa espanto. (...)


A caridade, diz Deus, não me impressiona.


Ela não causa espanto. (...)


Mas a esperança, diz Deus, eis algo que me impressiona.


A mim mesmo.


Ela é espantosa. (...)


O que me espanta, diz Deus, é a esperança.


E não consigo me recobrar desse espanto.


Essa pequena esperança que tem ar de não ser nada. 


Essa pequena menina esperança.


Imortal.”[8]


É certamente essa esperança que explica o anuncio, no último dia dessa quinzena de maus ventos, do Fórum Social Temático sobre Energia, a se realizar em agosto em Brasília. Aí se discutirão não somente as usinas nucleares mas todo o sistema de produção de energia no Brasil, contrapondo por exemplo, entre outras opções, as mega hidro-elétricas à produção descentralizada de eletricidade com fonte solar ou eólica (www.fst-energia.org).







[1] Informações divulgadas pelo canal RT de Moscou, edição em espanhol. Outra notícia, publicada pelo La Razón de 16 de maio de 2014, é deveras interessante. El mandatario izquierdista señalo que anteriormente los técnicos bolivianos le pidieron no hacer anuncios al respecto, por el riesgo que significaba dar información pública de este tipo. “Algunos técnicos, como siempre, dicen: ‘Es muy peligroso, no hay que informar a la población, hay que trabajar calladamente, a veces puede reaccionar el pueblo’”, conto. Por tal motivo, prosiguió, las reuniones bilaterales comenzaron bajo condiciones “secretas y a puertas cerradas”…




[2] http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/CIENCIA-E-TECNOLOGIA/467611




[3] Noticia recebida diretamente do PV da Alemanha.




[4] Diário da Rússia, 18 de maio de 2014




[5] O Estado de São Paulo, 14 de maio de 2014 




[6] O Valor Econômico – Edição de 5 de maio de 2014




[7] Le Porche du Mystère de la Deuxième Vertu, Charles Péguy, 1929, Editions Gallimard, França, 1950.




[8] Tradução do autor deste artigo.