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Mais notas sobre a minha proposta para o Conselho Internacional do FSM
2013-01-02

Explico neste texto um pouco mais a minha proposta, considerando os comentários de Francine e Gina, especialmente no que diz respeito aos GRAPs. Muitas coisas que eu digo abaixo são conhecidas por todos, mas são necessárias para estruturar o meu raciocínio. 

 
 

Mais notas sobre a minha proposta para o Conselho Internacional do FSM


Chico Whitaker, 15/01/201


Explico neste texto um pouco mais a minha proposta, considerando os comentários de Francine e Gina, especialmente no que diz respeito aos GRAPs. Muitas coisas que eu digo abaixo são conhecidas por todos, mas são necessárias para estruturar o meu raciocínio.



  1. Quando eu disse que temos que superar a possibilidade do “ou” (espaço ou movimento) no processo do FSM e começar a usar a possibilidade do “e” (espaço e movimento), não foi para dizer que o FSM teria que se tornar um espaço e um movimento: deveríamos ter o FSM como espaço e criar um novo movimento (o OMP - um Outro Mundo Possível) como movimento, em paralelo, sem misturá-los. Deveríamos, no entanto, vinculá-los, transferindo para o OMP algumas funções atuais do Conselho Internacional do FSM, como já indiquei (uma vez que o CI do FSM e suas comissões desapareceriam). Mas, além dessas funções, o OMP, sendo um movimento, agiria autonomamente, como movimento, a fim de realizar nossos objetivos de superação do neoliberalismo.

  2. Propus que o OMP não fosse formado por organizações ou movimentos, como acontece agora com o CI, mas por indivíduos - membros ou não de organizações ou movimentos - ligados uns aos outros em rede, com uma contínua intercomunicação horizontal através do site do OMP ou diretamente. Formar o OMP com indivíduos é uma opção baseada no fato de que organizações e movimentos tendem a burocratizar os seus compromissos. Como organização ou movimento, eles decidem (democraticamente ou não...) se concordam com uma proposta de ação. Seus membros farão então o que tem que fazer, se são disciplinados e obedecem a ordens de cima ou decisões coletivas. Enquanto que, como indivíduos, envolvem-se na ação por convicção, quando concordam com a proposta.

  3. Organizações e movimentos são evidentemente importantes, às vezes indispensáveis, nas lutas sociais. A pergunta seria: como fazer organizações e movimentos se envolverem em lutas propostas ou promovidas pelo OMP? Um dos papéis dos participantes do OMP seria então obter o envolvimento das organizações ou movimentos a que possivelmente estejam ligados.

  4. Todo e qualquer participante do OMP poderia fazer propostas para ações do OMP ou compartilhar suas reflexões com os outros, por meio do site ou diretamente. Boas reflexões e propostas seriam bem recebidas e aceitas e poderiam ser implementadas, bem como propostas e reflexões menos boas seriam esquecidas.

  5. Quando pensamos e propomos alguma coisa sozinhos, podemos correr o risco de não vermos tudo e cometer erros, e apresentar propostas ou reflexões ruins que ninguém vai aceitar. Todos sabemos disso. É sempre melhor discutir com pelo menos mais alguém. Evidentemente é ainda melhor se discutimos a proposta com mais pessoas. Cometeremos menos erros e talvez possamos desenvolver com todo o grupo (inteligência coletiva) muito boas ideias. Este foi o processo que levou à criação do nosso GRAP no Brasil. E esse mesmo processo poderia ser vivido por muitos participantes individuais do OMP, criando, naturalmente, diferentes tipos de grupos, com diferentes objetivos e tipos de ação (ver ponto 10).

  6. O mesmo pode ser dito em relação às ações. Naturalmente sempre posso agir como indivíduo. Por exemplo, no meu comportamento diário como consumidor. Mas se eu tiver boas ideias sobre como tornar as pessoas mais conscientes de nossa cumplicidade com o sistema se aceitarmos o comportamento consumista, e se eu as discutir com outros e planejar ações coletivas, os resultados serão melhores. Não tenho certeza se nosso amigo que escalou até o topo a Bolsa de Valores de Bruxelas há algum tempo atrás decidiu sozinho sobre essa sua ação. Foi uma ideia muito boa, para denunciar o que acontece em nossas “Wall Streets". Talvez ele não tivesse feito o que fez se o tivesse discutido antes, com outros. Mas talvez também muitos outros poderiam ter feito o mesmo em muitos países, no mesmo dia, por exemplo, se sua ideia fosse discutida com outros e proposta em rede. Como acontece hoje com o movimento Occupy Wall Street e com todas as outras iniciativas de "Ocuppy" que existem hoje nos Estados Unidos, inspiradas na primeira.

  7. Uma rede, como sabemos, é como um tecido. Cada membro da rede é um nó, ligado a todos os outros por fios de intercomunicação. Um tecido é mais forte se houver muitos fios ligando os nós. E é ainda mais forte se, em uma rede de pessoas, se os nós não forem indivíduos, mas grupos. Ou, dizendo de forma diferente, a rede é mais forte se liga grupos e não indivíduos. Este é o sentido da palavra "densa", que usei apresentando os GRAPs no meu segundo texto.

  8. Em uma rede, diferentes tipos de grupos podem ser criados por iniciativa de indivíduos que não desejam ficar sozinhos, e sim intercambiar horizontalmente com outros participantes. A rede do OMP será cada vez mais forte com a multiplicação de tais grupos, na heterogeneidade que é uma das características da sociedade civil.

  9. O OMP seria um tecido mais forte (mais denso) com nós grandes e fortes, cada um cumprindo o seu papel na reflexão coletiva e ação. E sua ação também poderia ser mais forte se resultante da ação de grupos e não apenas de indivíduos. A horizontalidade asseguraria a não existência de nós mais importantes do que outros, ou nós pretendendo direcionar a reflexão e a ação dos outrosOs participantes do OMP poderiam então se reunir em muitos tipos de grupos (ver ponto 5). Os GRAPs seriam um tipo de grupo. Eles seriam grupos autônomos de indivíduos, com características e objetivos específicos (ver ponto 16).

  10. Os participantes do OMP poderiam então se reunir em muitos tipos de grupos (ver ponto 5). Os GRAPs seriam um tipo de grupo. Eles seriam grupos autônomos de indivíduos, com características e objetivos específicos (ver ponto 16).

  11. Assim como nenhum grupo teria mais importância do que os outros, os GRAPs não teriam um poder especial dentro da rede. Nem poderiam constituir, no seu conjunto, uma estrutura oculta por trás da rede, com a pretensão de dirigi-la. Assim, no que diz respeito à apresentação de propostas (ver ponto 4), por exemplo, ninguém precisaria, para fazê-lo, ser um membro do GRAP (nem de qualquer outro grupo), assim como as propostas e reflexões não precisariam também aguardar as decisões dos GRAPs para serem consideradas ou não.

  12. Para tornar ainda mais clara a posição dos GRAPs dentro do OMP, é bom dizer que as plenárias do OMP por ocasião dos Fóruns Sociais Mundiais não seriam plenárias de membros dos GRAPs, mas de todos os participantes do OMP. O consenso a ser alcançado nestas plenárias sobre, por exemplo, o país a ser escolhido para o FSM seguinte, consideraria a opinião de todos, membros ou não de GRAPs.

  13. Ampliando a questão: cada participante do OMP, como todos os grupos existentes dentro dele, incluindo os GRAPs, poderiam fazer propostas relativas a ações a serem desenvolvidas pelo OMP. Mas poderiam ser criados grupos voltados especificamente para a ação do OMP, reunindo participantes que desejassem pensar e trocar ideias sobre as diferentes possibilidades de ação do OMP, seus métodos, objetivos e oportunidades de lançamento. Para que o OMP decidisse sobre qualquer uma dessas propostas, esses grupos teriam que apresentá-las para todos através do site. Eles também não teriam, portanto, um poder especial dentro da rede.

  14. O mesmo poderia ser dito sobre os grupos de trabalho que fossem criados para assumir a responsabilidade de algumas das funções atuais do CI do FSM (expansão, metodologia, comunicação, estratégias, conteúdo), como indiquei em meu texto anterior. Os membros dos GRAPs seriam especialmente bem-vindos nestes grupos de trabalho devido ao tipo de interesse dos participantes que neles se reúnem (ver ponto 16), mas seriam abertos para todos os outros participantes do OMP que desejassem trabalhar com este objetivo. E esses grupos não seriam mais importantes do que outros.

  15. Em meus textos anteriores eu disse que os GRAPs poderiam também dialogar com governos e partidos, não em nome do OMP mas em seu próprio nome. O raciocínio que desenvolvi neste texto me leva a dizer que qualquer grupo do OMP poderia fazê-lo, mas sempre, evidentemente, em seu próprio nome, como um grupo de participantes do OMP, sem no entanto comprometer o OMP como um todo. Os resultados de tais diálogos poderiam tornar-se, em seguida, propostas a apresentar a todo OMP, que tomaria as decisões por consenso.

  16. No entanto, concluindo meu raciocínio, os GRAPs poderiam desempenhar um papel orgânico dentro do OMP, entre os vários grupos que poderiam nele existir: 1) eles reuniriam participantes especialmente preocupados com a continuidade e a expansão do processo FSM, como uma criação contínua de cada vez mais "espaços abertos" em todos os níveis e em todo o mundo, segundo a Carta de Princípios do FSM (que define os objetivos do processo FSM). Como seu nome indica, o objetivo dos GRAPs seria o de assegurar “uma reflexão e um apoio" ao processo do FSM; 2) eles dariam ênfase ao respeito à diversidade, que é uma das características do FSM, uma vez que seriam grupos formados a partir de critérios de afinidade mas com participantes provenientes de diferentes tipos de engajamentos e setores da sociedade civil. Neste aspecto, eles seriam diferentes dos outros grupos na rede do OMP, que poderiam existir igualmente a partir de critérios de afinidade mas com pessoas tendo a mesma visão política ou trabalhando no mesmo setor da realidade; 3) o Manifesto ou Carta de princípios do OMP poderia "autorizar" os GRAPS a criarem escritórios de apoio, de forma autônoma, e obter fundos para o funcionamento do seus próprios escritórios, que estariam a serviço, no entanto, de todo o OMP. Isso tornaria possível descentralizar, de forma organizada, a alimentação do site do OMP, através desses escritórios. Na verdade os GRAPs seriam encarregados do funcionamento do site, como ferramenta de intercomunicação de todos os participantes do OMP.

  17. A existência de GRAPs também poderia facilitar uma descentralização das iniciativas para obtenção de fundos até mesmo para ações do OMP como um todo, uma vez que já o fariam para financiar seus escritórios de apoio. Neste caso, os GRAPs se comprometeriam a manter todos os participantes do OMP informados de forma transparente dos recursos obtidos e sua utilização.

  18. A existência de GRAPs ajudaria também os participantes isolados do OMP, que quisessem contribuir para a expansão e aprofundamento do FSM, a estarem mais organicamente presentes no OMP: eles poderiam ligar-se a qualquer GRAP (segundo sua própria escolha, em seus próprios países ou em outros países).

  19. A criação de GRAPs, mesmo sendo muito útil, não precisaria ser forçada. Poderíamos criar o OMP apenas com "participantes", unidos ou não em diferentes tipos de grupos. Ele poderia funcionar assim um certo tempo, mesmo sem grupos ou outros GRAPs além daquele que já existe. Esses outros GRAPs seriam criados onde e quando eles se tornassem possíveis e necessários, como aconteceria com outros tipos de grupos. Uma vez criados, eles se ligariam uns aos outros segundo as necessidades e possibilidades.

  20. Uma última palavra sobre a tomada de decisão do consenso. Considero que esta é uma das experiências mais ricas do processo FSM. Em primeiro lugar porque evita a utilização dos métodos antidemocráticos tradicionais para ganhar votações em assembleias: trazer seguidores de nossas posições para encher a sala. Em segundo lugar porque aprendemos a ouvir, uma vez que somos obrigados a ouvir o que diz o nosso adversário e tentar entender a sua verdade, para ver se ela pode ser combinada com a nossa verdade, uma vez que não se vai votar e temos que construir uma decisão aceitável para todos. Isto requer tempo, mas a decisão consensual pode ser obtida mais rapidamente se aqueles que facilitam a discussão tentam identificar o mais depressa possível a decisão que parece se tornar consensual. Em seguida, eles perguntam quem considera absolutamente inaceitável tal decisão. Se alguns pensam assim (e mesmo que uma única pessoa pense assim) a discussão deve continuar, até se chegar a uma proposta de decisão que possa ser aceita por todos, mesmo que todos não estejam completamente satisfeitos. Este processo coloca como condição principal, para tomar decisões, a possibilidade de manter a unidade, evitando o afastamento  das minorias derrotadas na votação, como acontece na fragmentação habitual da esquerda. A tomada de decisão consensual não é a obtenção da unanimidade, mas a criação de condições para continuar juntos.


CW. 16/01/2013