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Entrevista com Francisco Whitaker, secretário-executivo da Comissão Brasileira de Justiça e Paz


 


A equipe do RISolidária conversou com o membro do comitê organizador dos Fóruns Sociais Mundiais, Francisco Whitaker. Nessa entrevista, Whitaker fornece um panorama da utilização do conceito de rede como prática da sociedade civil, percorrendo brevemente o contexto de sua adoção, a relevância para as ações na área social e os principais desafios e dificuldades a serem superados.


 


Francisco Whitaker é arquiteto por formação; líder político por vocação, engrossou a leva de exilados brasileiros na época da ditadura militar, nos décadas de 60 e 70. Passou 15 anos entre a França e o Chile, virou especialista na área de planejamento e voltou ao Brasil em 1981.


Com um longo histórico de engajamento em entidades ligadas à Igreja Católica, desde a militância na Juventude Universitária Católica (hoje Pastoral da Juventude) até a participação em projetos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Whitaker foi também vereador em São Paulo e atualmente é secretário-executivo da Comissão Brasileira de Justiça e Paz, órgão vinculado à CNBB. Whitaker foi um dos primeiros a utilizar na área política o conceito de rede como forma de organização, com o objetivo de superar às imposições dos grupos de poder.

 
 

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Entrevista com Francisco Whitaker, secretário-executivo da Comissão Brasileira de Justiça e Paz


 


A equipe do RISolidária conversou com o membro do comitê organizador dos Fóruns Sociais Mundiais, Francisco Whitaker. Nessa entrevista, Whitaker fornece um panorama da utilização do conceito de rede como prática da sociedade civil, percorrendo brevemente o contexto de sua adoção, a relevância para as ações na área social e os principais desafios e dificuldades a serem superados.


 


Francisco Whitaker é arquiteto por formação; líder político por vocação, engrossou a leva de exilados brasileiros na época da ditadura militar, nos décadas de 60 e 70. Passou 15 anos entre a França e o Chile, virou especialista na área de planejamento e voltou ao Brasil em 1981.


Com um longo histórico de engajamento em entidades ligadas à Igreja Católica, desde a militância na Juventude Universitária Católica (hoje Pastoral da Juventude) até a participação em projetos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Whitaker foi também vereador em São Paulo e atualmente é secretário-executivo da Comissão Brasileira de Justiça e Paz, órgão vinculado à CNBB. Whitaker foi um dos primeiros a utilizar na área política o conceito de rede como forma de organização, com o objetivo de superar às imposições dos grupos de poder.


 


RISolidária: Em que contexto surge o conceito de rede aplicado à prática de atuação das entidades da sociedade civil?


Francisco Whitaker: Tudo surgiu a partir dos movimentos estudantis de 1968, que eram movimentos contra diferentes tipos de autoritarismos. Podemos citar, só a título de exemplo, os movimentos contra a ditadura, no Brasil, e contra o autoritarismo dentro da universidade, na França. Os movimentos eram contra as formas de uso do poder numa perspectiva de dominação. Foi uma espécie de “susto" no mundo todo.


Esses movimentos tinham propostas libertárias que não chegaram a se concretizar; como sempre, receberam a resposta do sistema imediatamente e, progressivamente, foram diminuindo. Mas eles ressurgiram, não propriamente o movimento, mas a mesma preocupação ressurgiu na década seguinte, e foi quando, pelo mundo afora, começaram a surgir novas formas de organização das diferentes lutas políticas, das diferentes ações sociais de mudança.


Eram formas que se embasavam, fundamentalmente, na perspectiva de horizontalidade das relações, ou seja, não ter comandos, não ter estruturas piramidais nas organizações. Foi a partir daí que as redes começaram a ser usadas: as n etworks, em inglês, os réseaux, na França, e outras diferentes formas. Eu situo esse como o começo, que não recebeu uma formulação precisa porque foi se caracterizando na prática. Nos anos oitenta, noventa, muitos movimentos sociais de diferentes tipos assumiram realmente esta proposta de não ter pirâmides de direção, comandos unificados, mas de ter direções colegiadas. Na minha opinião, é a partir dessa base que foi surgindo esta forma de organização em rede.


 


RIS: Qual a importância das redes no atual contexto da sociedade?


Whitaker: A utilidade da organização em rede foi descoberta até em outras áreas que não a social, como, por exemplo, a empresarial. As empresas descobriram que uma estrutura que não possui comando único, verticalizada, mas que é horizontalizada, tinha mais eficiência principalmente na captação da inovação e no envolvimento dos trabalhadores, dos funcionários, e nas ações. Toda esta fórmula que, hoje, existe de maneira generalizada nos franchising , por exemplo, a qual estabelece algumas regras do jogo, mas que proporciona mais autonomia para as organizações, é uma fórmula de estruturamento em rede.


Há também dentro das próprias empresas relações que se estabelecem horizontalmente, principalmente nas trocas de informações sobre tecnologia e etc, que são absolutamente livres. É claro que não são todas as empresas que adotam esse modelo, mas muitas daquelas que o fazem gozam de um benefício muito grande. Isso porque se descobriu pouco a pouco que o comando, a verticalização, a informação que só flui de cima pra baixo e de baixo pra cima tem seus limites e, portanto, uma informação mais livre, mais horizontalizada, conta não somente com a autonomia daqueles que agem, mas principalmente com a co-responsabilidade dos mesmos, no sentido de se ajudarem criando uma espécie de relação de solidariedade.


Já na área social, isso começou também a ser percebido. Contudo, nos movimentos sociais, muito marcados por estruturas tradicionais verticais como as dos partidos, a utilização do conceito de rede e as mudanças para a sua promoção acontecem mais devagar do que nas empresas privadas. Mas, aos poucos, esse modelo está sendo descoberto e intensificado. É muito importante, por outro lado, lembrar que a noção de rede, ou a palavra rede, muitas vezes é utilizada para muitas estruturas que não têm relação com uma organização horizontal, com uma organização ideal em rede. Essas estruturas afirmam que suas informações se propagam através dos diferentes agentes horizontalmente, se expandem, mas não significa que o sistema de decisão seja um sistema descentralizado, um sistema horizontalizado.


Vale lembrar que a adoção do conceito de rede faz parte de uma dinâmica inserida em um contexto internacional . No mundo inteiro há uma intensa proliferação de redes unindo os diferentes tipos de movimentos sociais que existem, a um nível que, atualmente, nos eventos internacionais e nas organizações desta natureza, há sempre referência não a uma organização, mas a uma rede. Ou seja, reúnem-se redes, fala-se sempre que as redes estão tomando esta ou aquela orientação. Constata-se, dessa maneira, que houve uma assimilação da noção da rede, mas principalmente ao nível internacional. Dentro das organizações nacionais, infelizmente, esse processo de efetivação da horizontalizdade ainda é lento.


 


RIS: E em que grau as entidades da sociedade civil têm percebido a importância do trabalho em rede?


Whitaker: Isso não é tão claro, tão consciente. Existe uma espécie de moda. Todo mundo se sente na necessidade de se organizar em rede. Uma vez dado esse nome, no entanto, continua-se a trabalhar como se trabalhava antes. Dentro das entidades há um processo difícil que implica mudança de atitude e de comportamento, e implica sobretudo a descentralização do poder e a sua distribuição e, automaticamente, sabemos que nem todo mundo está disposto a isso, pois existe um medo muito grande de perder poder, de perder o controle sobre o que se faz. A rede horizontalizada, a autonomia e a co-responsabilidade às vezes amedrontam quem acha que sem ordens precisas e disciplina não se consegue chegar a determinados objetivos. Portanto, esse processo não é assim tão tranqüilo, embora as organizações sociais em geral considerem que não se pode deixar de utilizar a rede como forma de organização.


Por outro lado, muita gente acha que o modelo de rede não é eficiente, inclusive por causa de uma certa pressa. A ação de rede é necessariamente lenta, porque ela implica que todos os componentes, todos os integrantes da rede assumam uma posição de co-responsabilidade no conjunto, se localizem dentro disso acreditando que o poder de conjunto, que é um poder de tipo novo, é mais eficaz do que um poder centralizado, verticalizado. Então, há muita gente que acha que a rede não é eficiente. E, efetivamente, a rede não serve para tudo. Existem certas organizações que não podem deixar de ser organizadas senão piramidalmente. Não se trata de optar ou por pirâmide ou por rede, como estruturas alternativas.


As estruturas piramidais, em certos tipos de organização, não podem deixar de existir porque elas funcionam tendo representantes que falam em nome da organização. Desde que exista a necessidade de alguém falando em nome da organização, a rede encontra dificuldades porque nela todos falam, ninguém fala em nome de todos, e todos falam em nome da sua própria necessidade dentro do conjunto. Um partido, por exemplo, não pode deixar de ter uma organização piramidal. Para dar um exemplo limite, podemos falar de exércitos. Um exército de guerrilha dá autonomia para seus integrantes, mas de fato até um certo ponto. Ora, um exército tradicional é absolutamente piramidal, porque seu princípio básico é o da disciplina. Nas próprias organizações empresariais que adotam um certo horizontalismo suas decisões essenciais, que dão orientação para o conjunto, se mantêm centralizadas e verticalizadas. Na verdade, a rede não é uma estrutura fácil e nem é uma estrutura que se adapta a tudo. Não se pode ficar triste por causa disso. São dados da realidade.


O que é novo é que a rede, em certas organizações, pode complementar a organização piramidal. Seria uma grande novidade que organizações piramidais como os partidos e os sindicatos, por exemplo, fossem permanentemente cruzados por redes no seu interior, sem que isso implicasse perda do processo decisório verticalizado, mas simplesmente alimentando este processo. Tudo aquilo que se espera da informação que vem de baixo para cima, que alimenta a decisão no topo do processo decisório, é recuperado pela circulação de informações que as redes propiciam. Então, é uma questão de ver que a rede, em certos tipos de trabalho, daria uma eficácia muito maior a esse trabalho do que se ele fosse organizado unicamente de forma piramidal. Principalmente naqueles trabalhos de tipo social, é preciso contar com uma grande participação das pessoas. A adesão que o sistema piramidal tenta obter é uma adesão de tipo envolvimento, e não de real participação, em termos de corresponsabilidade. A adesão que pretenda contar com esse tipo de participação das pessoas só é obtida através do sistema horizontal.


 


RIS: Segundo as características inerentes às redes apontadas por você (co-responsabilidade, livre circulação de informações), como avaliaria as que conhece e que já estão implementadas? O que tem dado certo?


Whitaker: As redes que definem um grande objetivo social, e visam uma participação maior em determinados tipos de processos decisórios, têm sido extremamente eficazes. Eu tenho alguns exemplos, aqui no Brasil, de processos desse tipo dos quais eu pude participar. Um deles, um dos primeiros, foi o da participação no processo constituinte brasileiro, nos anos de 1985 a 1988, quando se multiplicaram pelo Brasil organizações que se chamavam “Plenários Pró-Participação Popular na Constituinte”. O próprio nome “Plenário” denota um pouco o modo como as pessoas se organizavam.


Elas se articulavam em fóruns, reuniões, e abriam um espaço para que todos propusessem a todos novas idéias sobre a maneira de mudar a Constituição, através das chamadas Emendas Populares, que eram a maneira concreta pela qual o Congresso Constituinte abriu espaço para a participação popular. Estas emendas populares, por exemplo, dependiam das pessoas participarem: era preciso colher assinaturas em quantidade suficiente para as emendas poderem ser apresentadas. Isso era obtido através da adesão cidadã das pessoas, e teve um resultado absolutamente espetacular e inesperado, inclusive para todos que participavam do processo. No final, depois de poucos meses de trabalho, tínhamos 12 milhões de assinaturas para 122 emendas populares. Os próprios organizadores não imaginavam que tinha se chegado a esse nível. Se cada cidadão podia assinar três emendas, no máximo, isto significava que 4 milhões de pessoas participaram do processo. Isso foi um dos exemplos em que a eficácia do sistema de organização em rede ficou absolutamente demonstrada.


Outro exemplo, mais recente, do qual também pude participar, foi também uma coleta de assinaturas para um projeto de lei de iniciativa popular. Em um intervalo de tempo mais longo - porque era um processo mais novo - uma proposta de uma lei para o Congresso recolheu 1 milhão de assinaturas em um espaço de um ano e meio. Nasciam realmente em todos os lugares grupos que tomavam consciência da importância daquela proposta, e se mobilizavam em busca de adesões, de assinaturas. Isso implicava também em realizar um trabalho educativo. Havia uma frase chave: “voto não tem preço, tem conseqüências”.


Organizações de todos os tipos se formavam, principalmente locais, e entre elas as inter-relações se faziam em jornadas conjuntas que foram aumentando o processo de adesão. O fundamental em um processo desse tipo é exatamente a adesão, a co-responsabilidade, a liberdade e a autonomia de tomar iniciativas novas. Em movimentos sociais dessa natureza isso é muito importante e tem dado certo. Eu cito esses dois exemplos dos quais participei, mas existem outros, principalmente na linha de envolvimento da opinião pública em torno de um dado objetivo.


 


RIS: Poderia nos contar alguma experiência que presenciou de formação de rede entre entidades que se associaram em prol de uma causa?


Whitaker: Vi um, pessoalmente, o Fórum Social Mundial: oito entidades brasileiras que se reuniram e constituiram o comitê de organização de um evento com dimensão mundial, um dos maiores acontecimentos políticos deste século. Essas entidades são reunidas sob a estrutura de rede, horizontal. Não existe uma pirâmide entre elas, todas são igualmente co-responsáveis, com algumas regras do jogo bem precisas, na linha de 100% da co-responsabilidade mas mantendo cada uma sua autonomia no que respeita à ação relativa aos seus objetivos específicos.Na ação que desenvolvem em conjunto – organizar o Fórum Social Mundial - há a regra da decisão por consenso, que é completamente diferente de uma regra decisória baseada na votação, onde a maioria impõe à minoria uma determinada decisão. Nunca se decide nada nesse pequeno colégio de oito entidades que não seja consensual, porque ninguém tem o direito de tomar iniciativas relativas ao Fórum que não sejam aceitas por todos. A busca do consenso não significa unanimidade, mas significa respeito mútuo e discussão da proposta.


Existem outras experiências desse tipo. Existem redes como o movimento de mulheres, por exemplo, e várias redes internacionais que reúnem diferentes organizações.


Os movimentos sobre meio ambiente estão em rede; o Greenpeace, por exemplo, não é uma rede, mas talvez o seja como estrutura organizativa porque seus componentes têm uma certa autonomia, e se relacionam horizontalmente.


O funcionamento de entidades que trabalham em rede se comprova, a nível internacional principalmente, por iniciativas bem sucedidas. Uma iniciativa bem sucedida, muito impressionante também, foi a marcha no mundo inteiro contra a guerra, que vimos em fevereiro do ano passado. Não houve nenhum comando central que organizasse aquilo. O que houve, simplesmente, foi uma proposta que circulou horizontalmente pelo mundo afora e atingiu um número crescente de pessoas. No dia da marcha ninguém imaginava que ela fosse atingir a proporção que atingiu: de 12 a 15 milhões de pessoas de muitos países do mundo saíram na rua para mostrar que eram pela paz e contra a guerra. No caso não se constituiu uma rede propriamente dita, mas houve uma comunicação em rede, uma intercomunicação pelo mundo afora de entidades e de organizações.


 


RIS: Quais são as principais dificuldades que se tem percebido, por parte das entidades, no processo de constituição de redes?


Whitaker: A primeira dificuldade é a dificuldade da “cabeça”. Estamos educados a certos sistemas verticais e piramidais de comando, inclusive na própria ação política. Todas as teorias políticas que tratam da organização são de tipo piramidal. Esta é a primeira dificuldade.


Muitas pessoas entram para esse processo mas continuam mantendo na cabeça delas uma certa crença na necessidade da disciplina, na necessidade do comando, no controle de cima para baixo. Isso dificulta que as pessoas assumam toda a liberdade que uma rede exige. Uma rede implica, portanto, mudança cultural , o que não se faz em um ano ou dois; às vezes nem em uma geração inteira.


Em segundo lugar , para que as pessoas possam passar de uma cultura para outra elas não podem ter receio da ineficácia ou medo do fracasso . Quando as pessoas têm medo de fracassar elas rapidamente se cristalizam em necessidades de disciplina, de organização, de comando, de decidir sobre a função de cada um, previamente.


Eu acredito que a combinação desses dois elementos fazem com que as redes acabem ficando, muitas vezes, com o nome de rede, como uma tentativa de ser rede, mas com um “chefe”; ou seja, são redes com chefes ou com grupos que chefiam, que controlam e falam em nome delas. Uma das típicas dificuldades práticas é falar “em nome de”; quer dizer, é como se a rede fosse uma entidade, uma instituição, um comando. As pessoas assumem o comando e começam a falar em nome daquela “rede” e, na verdade, elas não estão nessa posição. Aqueles que não participam da visão daquele que fala pela rede acabam se afastando; é o mesmo problema da pirâmide: quando não se aceita a direção, a tendência é a de se afastar e trilhar outro caminho. Numa rede que tem um porta-voz, por exemplo, caso esta “voz” não seja escolhida por meio de um processo de consulta muito democrático, muito amplo, acabam se criando chefes que afastam aqueles que não aceitam o seu comando e não querem se inserir na rede deste jeito. São arremedos de rede, são quase pirâmides.


 


RIS: E em relação à sustentabilidade das redes que já estão formadas, quais são as dificuldades?


Whitaker: A sustentabilidade decorre da co-responsabilidade . Uma rede exige, por exemplo, que existam alguns nós que prestem serviços aos demais. Um sistema de intercomunicação não flui espontaneamente. Numa rede que funcione bem, ele deve ser alimentado permanentemente. Deve haver alguns dos nós na rede, que não são comandos, são pontos da rede que assumem uma tarefa específica de alimentar a rede com aquilo que é a seiva delas, que é a informação, a circulação da informação. Esses centros de serviço, que não são centros de comando, são necessários para que as redes se mantenham. Muitas vezes, as redes nascem e morrem porque não tiveram um grupo que assumiu a tarefa de alimentar todos seus integrantes com informações. Não é alimentar a partir do centro, mas fazer com que as informações se propaguem, que uns passem aos outros, ou seja, fazer a função de agência de “correios”. Mais do que alimentar, na verdade, é fazer circular a informação; a expressão mais correta seria essa.


Por outro lado, existe o ponto-de-vista financeiro da manutenção e, nesse caso, todos têm de assumir esse custo. A forma de gestão desse custo é uma decisão que deve ser tomada pelos integrantes da rede, e não é, necessariamente, algo em que todos devem estar de acordo. Aqueles núcleos, os nós da rede, que têm a tarefa de fazer circular a informação, podem buscar suas fontes de financiamento, desde que estejam dentro dos princípios que a rede adota para o seu funcionamento. Eles podem fazer isso sem necessariamente depender de uma consulta. Por outro lado, isso pode ser um serviço voluntário, sem custos. Mas em compensação, a instalação de um serviço, mesmo Internet ou algo desse tipo, tem algum custo. Porém as pessoas e os grupos que fazem isso podem assumir este custo. Por exemplo, se dentro da rede houver apoiadores desse serviço, desde que tenham credibilidade e mostrem que não estão querendo dominar, mas realmente servir, não haverá dificuldade em se encontrar recursos para isso. Quem faz esse serviço pode assumir tranqüilamente a busca de financiamento para o que faz.


 


RIS: Como seria possível realizar uma avaliação de desempenho de uma rede considerando os aspectos qualitativos e quantitativos envolvidos? Que indicadores poderiam ser utilizados?


Whitaker: Um indicador fundamental é verificar se o objetivo está sendo alcançado ou não. Não se pode medir antes. Aliás, em muitas das experiências de rede que têm acontecido, os resultados são mais surpreendentes do que os esperados, porque não se pôde avaliar muito. Além disso, de forma geral, podemos dizer que o crescimento de uma rede é um outro bom indicador. Uma rede que se estagna, que fica só com os mesmos participantes, nos comunica que algo de errado está acontecendo, já que uma rede é fundamentalmente aberta e busca se expandir sempre. Há sempre mais gente que está de acordo com as propostas que estão sendo trabalhadas dentro de uma rede, e mesmo quem não está de acordo com aquelas pode entrar com novas propostas. Eu creio, portanto, que há um indicador, por um lado, da expansão permanente e, por outro, de resultado.


Um meio que poderíamos utilizar para coletar informações sobre isso, por exemplo, seria produzir um sistema de alimentação da informação, para promover a sua circulação. Um grupo responsável poderia, por exemplo, a cada período, fazer uma consulta sobre o andamento de como as pessoas estão percebendo a rede, sobre determinados pontos sobre a rede, etc. A resposta a essa consulta é também um indicador. Se ninguém responder, é porque a rede está sendo artificial. Se as pessoas assumirem a resposta, é porque ela realmente está correspondendo a uma adesão autônoma e consciente de cada um de seus integrantes.


 


RIS: Qual é o papel que a atual tecnologia de informação tem assumido na rede social, como ela pode auxiliar o trabalho em rede?


Whitaker: Isso foi um avanço enorme ocorrido nos últimos trinta anos. Nas primeiras experiências de rede que existiram, nos anos 70, não se tinha essa facilidade que se tem hoje. A tecnologia de transmissão de informação livre, absolutamente horizontal e autônoma é um instrumento espetacular com que as redes podem contar atualmente. Basta ter o que se chama, atualmente, de lista de discussão. Uma lista de discussão num grupo de pessoas indica a possibilidade de todos escreverem a todos sem nenhuma censura ou hierarquização. Por vezes, cria-se a figura do moderador, que é uma figura perigosa, porque o moderador pode controlar, hierarquizar, classificar, censurar. Na verdade, o moderador deveria ser aquele que restabelece as regras do jogo. Por exemplo, uma lista de discussão criada na Internet pode ser usada por algumas pessoas para fazer comunicações interpessoais, e não para a rede toda. Ao moderador caberia chamar a atenção dessas pessoas, em nome dos outros que não se interessam por recados particulares, para que essas pessoas não usem a rede para intercomunicações interpessoais, mas para comunicações gerais de toda a rede.


Uma lista de discussão de um grupo de pessoas é algo que está se tornando cada vez mais corrente e que facilita a própria organização. Por exemplo, você tem um grupo de pessoas que está discutindo como criar uma determinada organização nova, certas pessoas imediatamente usam a Internet para estabelecer uma lista de discussão entre elas, e automaticamente se democratiza a informação, se passa a depender menos de reuniões para poder decidir o que tem que ser decidido. As decisões podem ser concluídas por um consenso mais ou menos natural. Típico, por exemplo, de situações desse tipo, é você colocar uma proposta e estabelecer que se espera dois dias para quem não esteja de acordo, e que se nesses dois dias não houver nenhuma reação, a proposta é aceita. Isso é possível dentro dos sistemas atuais de informática. Obviamente, isso exige muito mais atenção das pessoas, muito mais atenção. Não se pode usar essa ferramenta quando não se tem o acesso fácil e direto à Internet, por exemplo.


Mas uma vez que se tem esse recurso, as pessoas encontram maneiras de estar a par de tudo que está sendo proposto. Mesmo que escape algo, o espírito que preside uma rede deve permitir que se volte atrás dessas decisões que foram tomadas, caso alguém descubra que ficou de fora de alguma decisão. É importante respeitar essa situação e rever a decisão. Há algumas destas, evidentemente, que não têm retorno, mas em geral isso é possível. É todo um espírito novo baseado na absoluta e total democracia e co-responsabilidade, porque não é um grupo querendo impor aos outros certas normas, uma pessoa querendo impor, mas realmente um consenso coletivo que vai se construindo.


A Internet, nesse sentido, é a maior aliada das redes atualmente. Não é a Internet livre, no sentido de que se escreve sobre tudo para todo mundo, mas listas de discussão, especialmente, fechadas. Eu conheço, atualmente, pelo menos dez listas de discussão fechadas de diferentes tipos e com diferentes temas, inclusive com as mesmas pessoas, mas que visam objetivos diferentes. Em cada uma dessas listas, eu posso participar, e se eu não participo, é porque não quero.


 


RIS: Você vê a rede eletrônica como a concretização da rede social?


Whitaker: Não, a rede eletrônica é um instrumento . A rede eletrônica - que às vezes é centralizada também - precisa dar o acesso às informações e manter os bancos de dados relativamente livres, desde que tenham acesso a eles apenas os que participam da rede. Ela não substitui de forma definitiva, entretanto, o encontro interpessoal. Tal tipo de encontro é necessário, inclusive, para identificar as dificuldades que estão ocorrendo, às vezes até preconceitos que tenham surgido entre as pessoas que participam de uma rede. Portanto, ela não a substitui; pelo contrário, os dois são complementares e o encontro interpessoal é necessário.


A rede de participação na constituinte realizava encontros estaduais e nacionais nos quais os participantes dessas redes tinham a oportunidade de definir objetivos e discuti-los mais diretamente, com mais facilidade do que através da palavra escrita e devido ao tempo que uma mensagem leva para circular. Essas propostas eram jogadas, em seguida, na rede. É importante também que esses encontros interpessoais sejam absolutamente abertos. Não podem ser encontros restritos a alguns membros da rede. Se forem encontros restritos somente a alguns integrantes, podemos dizer que se instaurou um pequeno centro de poder dentro delas. A única solução é: podem existir encontros particulares entre membros da rede, mas eles devem estar dispostos a sempre jogar dentro da rede as conclusões a que eles chegaram. Não numa atitude de pretender controlar um pedaço da informação, mas de colocar à disposição do conjunto as informações que estão recebendo e as propostas que estão fazendo. É uma atitude, fundamentalmente, de serviço e não de dominação.


 


RIS: O que ainda está por fazer para que ocorra uma efetiva consolidação do trabalho em rede? Você tinha falado que existe uma dificuldade muito grande em relação à adoção da rede por causa do medo, da resistência às mudanças culturais.


Whitaker: Primeiramente devemos dizer que a organização em rede não constitui necessariamente um único tipo de organização, e nem precisa substituir o modelo piramidal; na verdade, ela surge para poder complementá-la.


Com relação à adoção do trabalho em rede, não há um determinado tipo de medida a ser tomada. O fundamental é a participação . Quem entra em um processo de rede vai se convencendo da eficácia que ela pode ter para aquele tipo de objetivo. Não há a possibilidade de convencer as pessoas sem que elas experimentem. Na realidade, é através da aproximação desse processo que isso vai se fazendo.


O que precisa ser realizado é uma permanente crítica daquilo que não é rede , isto é, uma permanente indicação dos desvios rumo aos sistemas piramidais. No sentido de dizer: “Tudo bem, pode continuar a chamar isso de rede, mas não é rede.”. Se nos tornamos conscientes de que ninguém é dono de nada no processo de rede, não podemos dizer: “Olha, você não faz parte da minha tribo.”. Não. Quem quiser faz, quem não quiser, não faz. O importante é que todos saibam que existem certas regras que, se não forem adotadas, a rede estará se autodestruindo, porque este é o problema: uma rede que se instala com chefia se destrói com o tempo, desaparece; uma rede que não tem isso, cresce. Portanto, uma organização que não se implanta como rede está trabalhando contra si mesma. No entanto, não há possibilidade de convencer as pessoas senão pela prática e pela experimentação. As pessoas irão tomar consciência de que existe uma proposta organizativa nova atrás daquilo que eles estão fazendo.


Muitas vezes, elas participam de redes sem se dar conta que estão participando de uma rede; nesses casos, é preciso tornar isso consciente. Não há regra, não há modo de fazer isso avançar senão pela experimentação crescente. As pessoas descobrem, muitas vezes no meio de um processo, que foi instalado sob forma de rede, que elas ganharam uma eficácia surpreendente. Elas, portanto, precisam tomar consciência de que essa eficácia foi devida ao fato delas terem sido organizadas horizontalmente, democraticamente.