Chico Whitaker
   
 
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Conto invertido – do fim ao começo
2011-12-01

Os acampados do “Ocupa Wall Street” – de onde veio a frase “somos 99%, vocês são 1%” - convidaram a escritora canadense-norte-americana Naomi Klein a lhes falar, há pouco mais de um mês. Como era de se esperar, seu apoio foi claro: “tratemos este momento lindo como a coisa mais importante do mundo”. Lembrando o primeiro grande encontro desse tipo de que participou, o “movimento dos movimentos” que bloqueou a Organização Mundial do Comercio em Seattle, em 1999, ela disse que seu cartaz favorito, no acampamento, era o que dizia “eu me importo com você”: “vocês se alimentam uns aos outros, se aquecem uns aos outros, compartilham informação livremente e fornecem assistência médica, aulas de meditação e treinamento na militância”. Para ela, os que ali estavam, na “horizontalidade” de um “espaço aberto”, “encontrando-se uns com os outros”, na opção da “não-violência”, queriam todos “um mundo melhor”.


Lendo sua fala fiquei na expectativa, frustrada, de que fosse se referir também ao Fórum Social Mundial, de cuja segunda edição, em 2002, ela tinha participado. De fato, a Carta de Princípios do Fórum assume, na luta pela superação do neoliberalismo e por uma globalização a serviço dos seres humanos e não do capital, a mesma perspectiva dos “indignados” que acampam pelo mundo afora: ele é definido como um “espaço aberto”, em que a regra básica é o respeito à diversidade e a horizontalidade na sua organização, adotando-se também a não violência como opção para a ação politica. Como nos acampamentos, ele não tem “dirigentes” nem “porta-vozes”, e nele não há lugar para “lutas pelo poder” ou para “declarações finais” que pretendam sistematizar, de cima para baixo, posições que seriam de todos. Sua caracterização como espaço específico da sociedade civil decorreu das mesmas constatações que fazem os “indignados”, quanto aos limites dos partidos como forma única de participação política e quanto à distância que hoje separa os diferentes tipos de dirigentes – governamentais, sindicais, partidários – da base da sociedade. Em seus eventos se busca construir, na prática, uma nova cultura política, fundada no aprendizado mútuo e na reflexão coletiva, em que se estimula a cooperação e não a competição entre seus participantes, com decisões tomadas por consenso e não por votações que afastam ou excluem as minorias. Tornando possivel descobrir convergências que permitam construir, na luta politica, uma união mais profunda do que simples alianças táticas.

 
 

Conto invertido – do fim ao começo


(imaginar é possivel)


Chico Whitaker, Dezembro de 2011


Os acampados do “Ocupa Wall Street” – de onde veio a frase “somos 99%, vocês são 1%” - convidaram a escritora canadense-norte-americana Naomi Klein a lhes falar, há pouco mais de um mês. Como era de se esperar, seu apoio foi claro: “tratemos este momento lindo como a coisa mais importante do mundo”. Lembrando o primeiro grande encontro desse tipo de que participou, o “movimento dos movimentos” que bloqueou a Organização Mundial do Comercio em Seattle, em 1999, ela disse que seu cartaz favorito, no acampamento, era o que dizia “eu me importo com você”: “vocês se alimentam uns aos outros, se aquecem uns aos outros, compartilham informação livremente e fornecem assistência médica, aulas de meditação e treinamento na militância”. Para ela, os que ali estavam, na “horizontalidade” de um “espaço aberto”, “encontrando-se uns com os outros”, na opção da “não-violência”, queriam todos “um mundo melhor”.


Lendo sua fala fiquei na expectativa, frustrada, de que fosse se referir também ao Fórum Social Mundial, de cuja segunda edição, em 2002, ela tinha participado. De fato, a Carta de Princípios do Fórum assume, na luta pela superação do neoliberalismo e por uma globalização a serviço dos seres humanos e não do capital, a mesma perspectiva dos “indignados” que acampam pelo mundo afora: ele é definido como um “espaço aberto”, em que a regra básica é o respeito à diversidade e a horizontalidade na sua organização, adotando-se também a não violência como opção para a ação politica. Como nos acampamentos, ele não tem “dirigentes” nem “porta-vozes”, e nele não há lugar para “lutas pelo poder” ou para “declarações finais” que pretendam sistematizar, de cima para baixo, posições que seriam de todos. Sua caracterização como espaço específico da sociedade civil decorreu das mesmas constatações que fazem os “indignados”, quanto aos limites dos partidos como forma única de participação política e quanto à distância que hoje separa os diferentes tipos de dirigentes – governamentais, sindicais, partidários – da base da sociedade. Em seus eventos se busca construir, na prática, uma nova cultura política, fundada no aprendizado mútuo e na reflexão coletiva, em que se estimula a cooperação e não a competição entre seus participantes, com decisões tomadas por consenso e não por votações que afastam ou excluem as minorias. Tornando possivel descobrir convergências que permitam construir, na luta politica, uma união mais profunda do que simples alianças táticas.


Seria portanto muito bom se pessoas com o prestígio e a credibilidade de uma Naomi Klein chamassem a atenção dos “indignados” tambem para o processo do Fórum Social Mundial, que há dez anos se espalha pelo mundo e tende agora a levar, através dos Fóruns Sociais Locais, sua lógica e sua dinâmica à base da sociedade. Dadas as similaridades das intuições dos que promovem Fóruns Sociais e as dos “indignados”, estes poderiam muito bem, ao mulplicarem seus acampamentos pelo mundo afora, se apropriar da metodologia e da experiência desses Fóruns.


A necessidade de tal diálogo na verdade já entrou nas preocupações dos facilitadores[1] de Fóruns Sociais, como os que estão programando um primeiro encontro com participantes de acampamentos por ocasião do Fórum Social do Maghreb, em março próximo.


Mas imaginando tudo isso comecei a sonhar, não sei se dormindo ou acordado. E comecei a ver muitas coisas acontecerem. 


Vi os “indignados” de muitos lugares começarem a levantar acampamento. Não para desistir do que estavam fazendo mas para mudar sua estrategia. Constataram que estavam se isolando do restante da sociedade. Esta tinha dificuldade em compreendê-los. Os meios de comunicação de massa a serviço do poder dominante espalhavam, para toda a população, dúvidas sobre o que estariam realmente pretendendo, e os apresentavam como incapazes de dar respostas aos problemas que levantavam, como se fossem jovens utópicos sem compromisso com a realidade. A partir daí era fácil passar a acusá-los de desocupados e inconsequentes. E, em seguida, de baderneiros e drogados. Os acampados começavam a ser vistos como corpos estranhos e indesejáveis no coração das cidades. Havia até quem empurrasse para dentro dos acampamentos os muitos "sem teto" moradores de rua. Com tudo isso a sociedade passava a aceitar que a repressão procurasse desalojá-los, até com violência.


Por outro lado, era demorada a construção de propostas e alternativas - como em todo processo que se autodefine de baixo para cima - assim como a formulação de novas iniciativas e ações. Muitos dos que tinham vindo para as praças começavam a se cansar, mesmo fisicamente, até porque surgiam novas dificuldades como o frio e a chuva. Por mais interessantes que fossem as palestras e discussões que aconteciam, as descobertas que faziam, o aprendizado da autogestão, a solidariedade que crescia, percebiam que era muito difícil manter indefinidamente ou por muito tempo seus acampamentos, quando não era a repressão que os desalojava.


Decidiram então começar uma nova fase de luta, que chamaram de “guerrilha cívica”.


Passaram a marcar uma assembleia geral a cada quinze dias, em fins de semana, em diferentes lugares da cidade. Um grupo assumia a tarefa de escolher o lugar da assembleia seguinte. Ele então avisava a todos qual seria esse lugar, através das diferentes redes sociais, na tarde imediatamente anterior ao evento, para dificultar a mobilização da repressão. Quando chegavam ao local e  as forças de repressão já os estavam esperando, espalhavam boca a boca um segundo lugar, alternativo, definido previamente em segredo.  


Essas assembleias gerais duravam toda uma manhã ou toda uma tarde. Elas criavam em primeiro lugar uma ocasião para reencontrar-se festivamente. Mas o principal era a troca de ideias e informações sobre as praças em que, no fim de semana seguinte, todos iriam desenvolver, ao mesmo tempo mas de forma descentralizada, as atividades que até então ocorriam no acampamento.


No fim de semana seguinte, portanto, eles se distribuiam pela cidade, cada “indignado” ou grupo de "indignados" escolhendo, livremente, a praça em que iria. Assim, eles espalhavam sua presença na cidade, no máximo possível de praças diferentes, em seus bairros centrais e periféricos, o que inclusive dificultava a ação da repressão.


Nessas praças acontecia então algo parecido com os Fóruns Sociais Locais: palestras, oficinas, debates, apresentações teatrais, música, danças, exibição de filmes, cada atividade preparada pelos “indignados” que as propunham, e que levavam ao local os equipamentos necessários para realizá-las. Em muitos lugares havia os que montavam creches para cuidar das crianças e ocupá-las com atividades educativas.


Para preparar essas atividades eles contactavam previamente intelectuais e ativistas que pudessem explicar melhor um bom número de coisas, assim como movimentos, associações e ONGs para contar o que faziam e as novas ideias que estavam propondo e experimentando, quanto à forma de organizar a economia, a politica, a democracia. Convidavam também pessoas que podiam dar testemunhos de vida e de luta, assim como autores de filmes, peças de teatro e canções a virem apresentá-los e debatê-los na praça. 


Muitos se davam ao trabalho de ir na semana anterior ao bairro onde iriam desenvolver atividades e visitavam seus moradores. Explicavam porque faziam aquilo, porque se autodenominavam “indignados”, que utilidade tinha para esses moradores o que aconteceria na praça. Conversavam com eles sobre tudo que estes achavam que não ia bem no seu bairro, no pais, no mundo. Mostrando que se podia mudar as coisas, procuravam acender neles a luz da esperança de que “outro mundo é possível, e mesmo necessário e urgente”. E os convidavam a virem participar do dia na praça, para conhecer e pensar as saídas que existem para os problemas que viviam.


Antes de iniciar os encontros de bairro os que ali se encontravam gastavam um pouco de tempo montando o programa do dia, que era afixado em lugar accessivel a todos. Quando não cabia tudo no tempo e no espaço disponiveis, eles tranquilamente transferiam atividades para o encontro seguinte, a se realizar quinze dias depois. E nestes, estas atividades ganhavam prioridade na programação.


No meu sonho vi então esses encontros de bairro se multiplicarem, pela cidade afora, com uma variedade enorme de questões e temas levantados. Havia palestras e oficinas sobre o funcionamento perverso da economia globalizada e sobre o uso que hoje se faz de robôs para decidir onde investir nas Bolsas, destruindo irresponsavelmente economias nacionais. Havia peças de teatro denunciando como a especulação imobiliária torna impossível resolver o problema de habitação de todos. Havia debates sobre a forma como o sistema capitalista procura resolver suas crises, sempre fazendo com que os mais pobres as paguem e como, na lógica desse sistema, tudo - até a vida, o corpo, as doenças das pessoas - era transformado em meio de ganhar dinheiro. Havia debates sobre a necessidade de, em eleições, sempre procurar eleger o melhor candidato, e sobre como se reunir com outros para saber qual era o melhor. E sobre a necessidade de, uma vez eleito o candidato escolhido, continuar acompanhando sua atuação e mesmo ajudá-lo, em vez de abandoná-lo no meio dos lobos para que seja comido pelos lobos ou se transforme ele tambem em lobo. Exibiam-se filmes didáticos mostrando como o consumismo e sua exacerbação fazem girar cada vez mais depressa a maquina industrial de produção de coisas cada vez menos duráveis, incentivando o desperdício, consumindo cada vez mais recursos naturais, necessitando cada vez mais energia e poluindo cada vez mais o planeta. E como consumidores conscientes e organizados podem parar essa máquina infernal. Discutia-se porque é preciso respeitar a natureza e viver em harmonia com a Mãe Terra e com os demais seres humanos. Explicava-se o que são os bens comuns da humanidade e porque não podem ser privatizados. Mostrava-se também que é possível ter moedas alternativas como meio de troca, que nos liberem da escravidão em que o dinheiro e a busca do dinheiro nos joga. Havia demonstrações de meios alternativos de locomoção, e apresentação da enorme quantidade de recursos publicos que são enterrados em grandes obras destinadas a facilitar o trânsito de carros, em detrimento do transporte coletivo, ao mesmo tempo em que, contraditoriamente, se joga cada vez mais carros para dentro das cidades. Mostravam-se documentários sobre lutas que tinham ocorrido contra a injustiça e a desigualdade, sobre as condições de vida nos países pobres enquanto se especula com os  preços dos alimentos e nos paises ricos se joga no lixo grandes quantidades de alimentos, ou sobre as razões dos países pobres estarem cada vez mais pobres, sobre os dramas vividos pelos imigrantes, sobre os perigos vividos pelos que procuram chegar nos paises ricos e sobre o numero de mortos entre os que tentam fazê-lo. Explicava-se como era possível reagir aos absurdos do sistema econômico dominante, contestando-os pela desobediência civil ou outros tipos de ação de resistência. E porque a geração de energia com reatores nucleares é a forma mais perigosa de esquentar água e produzir vapor que faça turbinas girarem. Ou que tipo de riscos estamos legando para as gerações futuras com o lixo atômico. Discutia-se porque e como a corrupção está cada vez maior, lá no alto das estruturas de poder e de riqueza, assim como a voracidade e a ambição dos poderosos. E contava-se que lutas estavam em curso na cidade, necessitando solidariedade, e quais os objetivos dos movimentos sociais que existiam no pais e no mundo. Apresentavam-se as alternativas existentes para que se deixe de medir a riqueza de um país pelo PIB, assim como as armadilhas em que os paises entram quando colocam como objetivo nacional o crescimento puramente econômico, e o que pode ser efetivamente considerado como riqueza. Esses e muitos outros temas de interesse local, nacional ou mundial eram trazidos e debatidos nesses encontros.  


Tudo isso acontecia com as pessoas transitando, como ocorre nos Foruns Sociais, entre cartazes, exposições e projeções com fotos, desenhos, textos e testemunhos sobre o que precisamos saber para sermos sujeitos de nossos destinos. Ao mesmo tempo em que grupos menores se reuniam para combinar o lançamento de iniciativas e mobilizações no bairro e na cidade, e para refletir sobre formas de ação que podem melhorar rapidamente as dificuldades do dia a dia das pessoas.


Era tanta a riqueza de informação transmitida que a noticia desses encontros começou a se espalhar e os moradores dos diferentes bairros começaram a participar de encontros em bairros vizinhos, e a pedir aos “indignados” que promovessem encontros daquele tipo nos seus bairros. E começaram até a acolher os que a eles iam, oferecendo-lhes o que comer, agasalhos e espaços para atender a necessidades de higiene, ou abrindo suas garagens para atividades de menor porte. Pouco a pouco também as associações, movimentos e ONGs locais e nacionais também começaram a procurar os “indignados”, pedindo-lhes uma oportunidade de apresentar a mais gente o que estavam experimentando e as inovações que estavam procurando introduzir na vida da cidade para melhorar a vida das pessoas.


Em pouco tempo vi quase todas as praças das cidades se transformarem, a cada 15 dias, em universidades abertas onde todos que o desejavam podiam vir, para aprender e ensinar, e para procurar entender o que estava acontecendo no mundo e nas suas cidades, e reencontrar o sentido de suas vidas. Era como uma forte onda que ia cobrindo todos os recantos, num ambiente de grande alegria. E vi começar a acontecer uma aproximação entre “militantes” e moradores em geral, passando por cima de preconceitos e instituições desvirtuadas e fazendo desaparecer a separação entre atividade politica e vida cotidiana.  


Mas comecei a achar que já não estava sonhando mas delirando quando vi militantes de partidos e de sindicatos começaram a frequentar esses encontros, sem pretender instrumentalizá-los para seus proprios objetivos nem utilizá-los para aliciar novos membros para suas organizações, mas para levar sua solidariedade aos que ali se reuniam e também para aprender e ampliar suas perspectivas de ação.... E desconfiei ainda mais de estar delirando quando vi que esses encontros tinham começado a inverter as tendências dos resultados de eleições que ocorriam. Os partidos conservadores e de direita que, apesar das crises e das dificuldades vividas pelas pessoas, até então quase sempre ganhavam, começaram a obter cada vez menos votos, enquanto a extrema direita parecia estar a caminho de ser totalmente banida do espectro eleitoral. Mas nem por isso os “indignados” passavam a acreditar que tinham atingido seus objetivos. Estavam mais do que conscientes do muito a fazer para mudar efetivamente o mundo, mais além da simples tomada do poder político, e de que o controle social sobre os que administram recursos públicos tem que ser permanente. E sabiam que será sempre necessário contestar e resistir a decisões de governo e de empresas privadas que sejam prejudiciais ao interesse público, bem como continuar, como sociedade civil, a “fazer” coisas como sujeito politico, autonomamente em relação a governos.   


Mas quando eu estava quase pairando no ar de felicidade com o que via acontecer em meu sonho, alguém me acordou. Era um jovem que queria me contar, entusiasmado, o que estavam fazendo os “indignados” de Barcelona, na Espanha. E o que começou a me relatar era muito do que eu estava sonhando...


Obviamente o caminho é longo. Mas é bonito. E muita gente já o está percorrendo. Sigamos, então, sonhando bem acordados.







[1] Os “organizadores” de Foruns Sociais se autodenominam, atualmente, “facilitadores”, para evitar que sua função seja confundida com a de comando e direção.