Chico Whitaker
   
 
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Chico Whitaker?
 
Discurso no recebimento do Premio Nóbel Alternativo em 2006
2006-12-08

Muitos que terão acesso a este site podem não ter a mínima idéia de quem seja esse tal de Chico Whitaker. Achei útil então, para apresentar-me, copiar aqui um discurso que fiz em 2006, quando recebi, em 8 de dezembro desse ano, na Suécia, o “Right Levlihood Award” (“Premio por uma maneira justa de viver”), conhecido como “Nobel alternativo”: ele apresenta a maior parte de meu itinerário de vida e os temas em torno dos quais estou agora me movendo.

 
 

(Texto lido na cerimônia de outorga do Prêmio da Fundação por uma Vida Justa - Prêmio Nobel Alternativo - em 8 de dezembro de 2006, no Parlamento Sueco, em Estocolmo) Meus caros amigos e amigas, “Há muito mais gente do que se pensa, no mundo, querendo mudar as coisas. O que precisamos é multiplicar os modos e as ocasiões de nos unirmos”. Fiz esta afirmação pela primeira vez em 1992, numa campanha eleitoral. Mas vinha construindo estas certezas desde muito tempo atrás. A primeira - somos muitos para mudar o mundo - foi sempre um estímulo para mim. A segunda – construir a união - um permanente desafio, carregado tanto de alegrias como de tristezas. O prêmio que tenho hoje a honra de receber tem muito a ver com minha atual confiança na possibilidade de vencermos esse desafio. Se ele me foi concedido por todo o meu itinerário pessoal, seguramente pesaram bastante nessa decisão os últimos sete anos, em que participei intensamente do processo do Fórum Social Mundial, marcado exatamente pela busca da união de que precisamos. Não é por acaso que fui indicado para esse prêmio por indianos que participam desse processo. Fui despertado para a questão social na década de 1950. Um teólogo abrira os olhos de minha geração de jovens estudantes católicos para o que seria uma das mais graves ofensas ao Deus-amor: a omissão diante da miséria e da opressão. Vivendo num país extremamente desigual - como até hoje é o Brasil – não podíamos senão tentar responder, de alguma forma, a essa provocação. A tarefa era no entanto enorme – e continua sendo. No Terceiro Mundo são tantos e tantos os que vivem em condições subumanas! Em toda parte crescem as desigualdades, surgem novos ódios e novas guerras sempre brutais, grandes riquezas se acumulam concentradas em poucos paises e em poucas mãos. Está gravemente ameaçada a continuidade da vida na Terra. E tudo isso acontece ao mesmo tempo em que aumentam exponencialmente os conhecimentos e os instrumentos da humanidade para resolver esses problemas. Essa contradição se explicou melhor para mim ao trabalhar num projeto de intercomunicação de experiências de luta contra a opressão pelo mundo afora, depois de ter sentido de perto a violência do golpe militar contra Salvador Allende no Chile. Percebi que o poder de que todos dispomos – muito ou pouco, em diferentes tipos e formas – pode ser exercido tanto para dominar como para servir. Para dominar mantemos a dependência de quem precisa dos recursos que controlamos. Ao mesmo tempo aumentamos esses recursos e nosso controle sobre eles. Para servir agimos de forma exatamente oposta: libertamos da dependência quem precisa desses recursos, fazendo com que acedam a eles com cada vez maior autonomia. O poder usado para dominar aumenta sempre, mas isola quem o detém. O poder usado para servir resulta na construção de outro tipo de poder: um poder-conjunto, compartilhado solidariamente por todos, maior do que o poder isolado que cada um de nós detinha. Sem dúvida o poder-dominação se situa ainda no mundo da barbárie, uma vez que não hesita em usar a violência para se impor; enquanto o poder-conjunto, nascido do poder-serviço, se situa plenamente no processo civilizatório que, apesar de tudo, a humanidade vem vivendo. Mas infelizmente o que ainda prevalece nas relações entre os seres humanos é o exercício do poder-dominação, até entre os que lutam pela justiça: nas suas relações não é sempre que se constata a reciprocidade própria ao poder-serviço, mas sim a luta por hegemonia, própria ao poder-dominação. Percebi com mais clareza, em seguida, como o dinheiro nos domina, chegando a nos escravizar. Sabemos todos como a humanidade o criou, ao longo de séculos, para facilitar nossas trocas, na interdependência inelutável em que vivemos. Ele acabou, no entanto, se libertando dos seus criadores. Mas não podia construir conosco nenhum poder solidário porque era unicamente um instrumento, impessoal e frio. Ao contrário, ganhando vida própria, o dinheiro aumentou sua autonomia e reduziu a nossa, tornando-se imprescindível para atendermos às nossas necessidades e até enfrentar nossos medos e angústias. Exigindo que o servíssemos para se acumular sempre mais, tornou-se central na atividade humana. Tudo, até a vida, passou a ter valor somente se pudesse ser medido e trocado por dinheiro. Seu poder foi se concentrando, tornando-se cada vez mais absoluto e mesmo cruel, e nos empurrando para a ganância e para a corrupção. Sabemos todos também que o motor da acumulação do dinheiro é a lógica competitiva – uma competição sem tréguas que só termina com a submissão ou mesmo a eliminação do concorrente, como numa guerra. Ora, a dominação que o dinheiro exerce sobre nós fez com que sua lógica invadisse nossos comportamentos: estamos sempre nos enfrentando uns aos outros, na luta por obter o que precisamos ou queremos. Pior: essa lógica penetrou de forma insidiosa até na atividade política, que em principio existe para buscar o Bem Comum, embora tenha sido sempre marcada pela luta pelo poder. Nela se impôs, então, a competição permanente e a relação vencedor-vencido, própria ao poder-dominação, em vez da co-responsabilidade própria ao poder-serviço. Ao começar a participar do processo do Fórum Social Mundial, dei-me conta da sua potencialidade para enfrentar essa lógica malsã. Ele foi criado como espaço aberto na busca de alternativas para a superação do capitalismo autoritário - hoje chamado de neoliberalismo - que estrutura a dominação e a exploração dos seres humanos pelo dinheiro. Mas a experiência da humanidade nas últimas décadas levantou, já de inicio, outras exigências: era preciso superar o capitalismo autoritário sem cair em totalitarismos ou novos tipos de autoritarismo. As frustrações políticas do século que terminava exigiam novos caminhos. Mais do que a simples democracia representativa, era preciso ampliá-la rumo a uma sociedade de cidadãos ativos, sujeitos solidários dos seus destinos pessoais e coletivos. Procurou-se então fazer com que os Fóruns criassem condições para essas buscas, substituindo, na sua dinâmica, a lógica competitiva pela lógica da cooperação, como valor básico de “um outro mundo possível”, e adotando, na organização das atividades que neles se realizassem, a horizontalidade própria às redes em vez das pirâmides que instauram a competição. Nessa perspectiva foi formulada, depois do primeiro Fórum realizado em Porto Alegre em 2001, uma Carta de Princípios para orientar os seguintes. Fomos então convidados a multiplicar a auto-organização de espaços em que movimentos sociais, ONGs e sindicatos pudessem reconhecer-se mutuamente, superando barreiras e preconceitos e construindo uma sociedade civil que se assumisse como novo ator político, independente de governos e partidos. O que se esperava com isso era que tais espaços facilitassem a aprendizagem mútua na não-diretividade das relações, como escolas de novas práticas políticas em que a disputa, tradicional na ação política, fosse substituída por uma atitude de escuta, respeitosa da diversidade – valor igualmente fundamental numa sociedade nova. Passando a ser importante procurar a verdade contida nas posições dos outros, nossos desacordos poderiam então deixar de nos dividir para se tornarem uma base fecunda para construir consensos, identificar convergências e criar articulações para uma maior eficácia de nossas ações, na alegria da criação do novo. Tudo isto exigindo, naturalmente, profundas mudanças dentro de cada um de nós, num longo e permanente processo de reeducação na solidariedade e na resistência à dominação, que nos faria a todos mais felizes. Com o surgimento, em todo o mundo, de Fóruns procurando, dentro do possível, realizar esses objetivos, fui me firmando na certeza de que se pode construir, por mais trabalhoso que seja, a união de que precisamos para mudar efetivamente o mundo. Tenho que dizer muito obrigado a todos, familiares, amigos, companheiros, que me levaram a chegar a essa certeza e a me encontrar no dia de hoje entre os que criaram e asseguram a atuação da Fundação por um Modo Justo de Viver - não escravizado pelo dinheiro - e entre os demais premiados por ela por sua “coragem e esperança num mundo desesperado”. Acredito que posso agradecer também em nome de todos que se sentiram recompensados e estimulados pela outorga deste prêmio – entre os muitos deste mundo que “querem mudar as coisas”. O que espero agora é poder colocar a visibilidade que me está sendo dada a serviço de um maior conhecimento e compreensão da grande aventura humana do Fórum Social Mundial, rumo ao “outro mundo possível”, que vem se tornando cada vez mais necessário e urgente. E peço a Deus energia para continuar participando deste esforço civilizatório, que tem ainda uma longa e difícil estrada pela frente. Francisco (Chico) Whitaker Ferreira